Poemas sufis para Deus

Poemas sufis para Deus

- emSufismo
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Rumi e a Evolução da Forma

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos
dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo; um punhado de pó
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne o mar,
cem vezes maior que o Mar de Omã.

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre Um; com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Abdula Ansari – As Duas Caabas

“Mesmo uma prisão
Irradia felicidade
Se o amor por Ti
Enche o coração.

Abençoada é a escravidão
Que Teu serviço compele,
Teus servos são felizes
Em suas servidões.

Há duas Caabas
A Caaba construída na terra
E a Caaba do coração.

A primeira é aquela que os pés
Dos peregrinos frequentam;
A outra é o local secreto
Que os Buscadores da Verdade descobrem.

É a primeira
Que enche os olhos dos fiéis;
A outra, apenas o devoto encontra
Sob o olhar de Deus mesmo.

A peregrinação à Caaba terrestre
É uma questão de disciplina formal;
A descoberta da Caaba do coração,
Depende da graça de Deus.

Numa, os peregrinos bebem do poço de Zam-Zam;
A outra abre suas fontes
Ao manar dos suspiros.

A Caaba terrestre
É guardada pela montanha Irfat,
O templo do coração
É radiante com a luz de Deus.

Da Caaba terrestre
ídolos de pedra foram removidos;
Da Caaba do coração
A voracidade e o desejo são destronados.”

Hakim Sanai – Ele Sempre Sabe

ELE SEMPRE SABE:
Ele conhece previamente teu mais íntimo pensamento. Ele percebe o que as suas criaturas necessitam antes mesmo que tenham concebido seu desejo.
Ele sabe do passo de uma formiga sobre uma pedra na escuridão.
Ele sempre sabe o que se passa na mente dos homens: farias melhor se refletisses sobre isso.
Se ages mal, há duas maneiras de encará-lo: ou pensas que Ele não o sabes, – e me espanto com a tua falta de fé ou então pensas que Ele sabe, ainda assim persistes, – e me espanto tua vil impertinência.
Podes ser verdade que nenhum homem conheça teus segredos; mas Deus os conhece; Ele não  é menos que um homem; certamente isto significa que ele conhece teu coração?
Então te afasta deste malfeito, para que em teu último dia não te afogues no mar de tua própria vergonha.

Hakim Sanai – Ele É o Teu Pastor

ELE É O TEU PASTOR:
Ele é o teu pastor e preferes o lobo.
Ele te convida a si, no entanto permaneces sem alimento.
Ele te dá a sua proteção, no entanto estás profundamente adormecido.
Bem feito para ti, tolo, insensato e presunçoso!
Ele cura nossa natureza desde dentro.
Ele é mais bondoso conosco do que nós mesmos o somos.
Uma mãe não ama seu filho com metade do amor que Ele dedica.
Sua bondade torna o indigno digno; e em troca Ele se contenta com a gratidão e paciência do seu servo.
Quebraste tua palavra, ainda assim Ele mantém sua palavra contigo: Ele é mais leal do que o és contigo mesmo.

Rumi – A Casa dos Hóspedes

O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.

Rumi – Samâ

Vem, vem, tu que és a alma
da alma da alma do giro!
Vem, cipreste mais alto
do jardim florido do giro.

Vem, não houve nem haverá
jamais alguém como tu.
Vem e faz de teus olhos
o olho desejante do giro.

Vem, a fonte do sol se esconde
sob o manto da tua sombra.
És dono de mil Vênus
nos céus desse remoinho.

O giro canta tuas glórias
em mil línguas eloquentes.
Tento traduzir em palavras
o que se sente no giro.

Quando entras nessa dança,
abandonas os dois mundos;
é fora deles que se encontra
o universo infinito do giro.

Muito alto, distante se vê
o teto da sétima esfera,
mas muito além é que encontras
a escada que leva ao giro.

O que quer que exista, só existe no giro;
quando danças, ele sustenta teus pés.
Vem, que este giro te pertence
e tu pertences ao giro.

O que faço quando vem o amor
e se agarra ao meu pescoço?
Seguro-o, aperto-o contra o peito
e arrasto-o para o giro!

E quando as asas das mariposas
abrem-se ao brilho do sol
todos caem na dança, na dança
e jamais se cansam do giro!

Nossa Canção Vitoriosa

Nesse dia final,
quando me ponham a mortalha,
não penseis que minha alma
permanecerá neste mundo.

Não chores por mim, gritando:
“Que tragédia, que tragédia!”
Cairias assim nas armadilhas
de um enganoso espelhismo.
Essa seria a verdadeira tragédia!

Quando vires meu corpo inanimado passar,
não griteis: “Se foi!, se foi!”,
pois será meu momento de união,
de aceitar o abraço eterno do Amado.

Quando me introduzirem na cova,
não me digais: “Adeus, adeus!”
A tumba é apenas um véu
que oculta o esplendor do Paraíso.

Pensa na aurora se houveres visto o ocaso.
Que dano fez pôr-se à Lua ou ao Sol?
O que é crepúsculo a vossos olhos
É alvorada para mim.
O que é para vocês uma prisão
É para minha alma um infinito jardim.

Crescerá toda semente no solo enterrada.
Haveria de ser diferente à semente humana?
Sai cheio cada balde que desce ao poço.
Deveria queixar-se me em vez de água
Retiro o próprio José (a beleza)?

Não busqueis aqui as palavras,
Busca-as em outro lugar.
Canta para mim no silêncio do coração
E me erguerei da terra para ouvir
Vossa vitoriosa canção.

Rumi – Quem Está em Minha Porta?

“Quem está em minha porta?”, perguntou Ele.
“Teu humilde servo”, respondi eu.
“Que é o que te traz aqui?”
“Saudar-te, meu Senhor.”

“Quanto tempo mais viajarás?”
“Até que TU me detenhas.”
“Quanto tempo mais ferverás no fogo?”
“Até que esteja purificado. Este é meu juramento:
No altar do amor entrego riqueza e posição.”

“Tens defendido teu caso, mas não tens testemunhos.”
“Minhas lágrimas são minhas testemunhas,
a palidez de meu rosto são minhas provas.”
“Teu testemunho não tem validade:
Teus olhos estão demasiado úmidos para ver.”
“Pelo esplendor de Tua justiça
meus olhos tornaram-se limpos e sem imperfeição.”

“Que buscas?”
“Ter-te como Amigo permanente.”
“Que queres de Mim?”
“Tua abundante Graça.”
“Quem foi teu companheiro na viagem?”
“O pensamento de Ti, meu Rei.”
“Que é o que te trouxe aqui?”
“A fragrância de Teu vinho.”

“Que é o que mais te agrada?
“A companhia do Soberano.”
“Que é o que n’Ele encontras?”
“Centenas de milagres.”
“Por que está o palácio deserto?”
“Porque todos temem o ladrão.”
“Quem é o ladrão?”
“Quem me mantenha apartado de Ti.”

“Onde encontras segurança?”
“No serviço e na renúncia.”
“Que te oferece a renúncia?”
“A esperança de salivação.”

“Onde se acha a graça?”
“Na presença de Teu amor.”
“Como te aproveitas desta vida?”
“Mantendo-me fiel a mim mesmo.”

Chegado está o momento do silêncio.
Se lhes falo de Sua verdadeira essência,
sairás de vosso Ser voando,
E nem porta nem telhado os poderiam reter!

Nos Braços do Amado

Como línguas de fogo na dança de amor,
ó Bem Amado, se para mim.
Como calor ardente,
ó Bem Amado, se assim para mim.

Com anelo se consome minha vela,
com lágrimas de cera vermelha.
Como mecha de una vela fundida,
ó Bem Amado, se assim para mim.

Agora que empreendemos o caminho do amor
já não podemos dormir na noite.
Como o que toca o tambor na taberna da embriaguez,
ó Bem Amado, se assim para min.

Despertos estão os amantes na noite escura;
não os molesteis sugerindo-lhes que durmam,
tão só querem estar em Amor juntos,
ó Bem Amado, se assim para mim.

A união é um rio que brama rumo ao mar, e hoje a lua beija as estrelas,
quando Majnum se converte em Layla, ó Bem Amado, se assim para mim.

Deus se transfigurou em todas as coisas
e honrou a seu poeta com bondade.
Tudo quanto toco e vejo se transforma em fogo de amor,
ó Bem Amado, se assim para mim.

Rumi e a Morte

Morri como mineral e tornei-me planta,
Morri como planta e tornei-me animal,
Morri como animal e tornei-me homem,
Por que temer? Quando fui diminuído pela morte?

Rumi, Masnavi

Rumi – Não Encontrarás

Segura o manto de seus favores,
Pois ele logo desaparecerá.
Se o retesa como a um arco,
Ele escapará como flecha.
Vê quantas formas ele assume,
Quantos truques ele inventa.
Se está presente em forma,
Então há de sumir pela alma.

Se o procuras no alto céu,
ele brilha como a lua no lago;
entras na água para capturá-lo
e de novo ele foge para o céu.

Se o procuras no espaço vazio
lá está, no lugar de sempre;
caminhas para este lugar
e de novo ele foge para o vazio.

Como a flecha que sai do arco,
Como o pássaro que voa da tua imaginação,
O absoluto há de fugir sempre
Do que é incerto.

“Escapo daqui e ali,
Para que minha beleza
Não se prenda a isso ou aquilo.
Como o vento, sei voar,
E por amor à rosa, sou como a brisa;
Também a rosa há de escapar do outono.”

Vê como se eclipsa este ser:
Até seu nome se desfaz
Ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo.

Ele te escapará à menor tentativa
De fixar sua forma numa imagem:
A pintura sumirá da tela,
Os signos fugirão de teu coração.

Rumi, Jalal ud-Din. Poemas Místicos, Divan de Shams de Tabriz

 

O Encontro de Dois Oceanos – Rumi e Shams de Tabriz

 

As Três Versões de “O encontro de dois oceanos”.

Vindo de madrassa (escola religiosa muçulmana) acompanhado de seus discípulos, Rumi cavalgava um burrico. Ao passar perto de um caravançarai, um homem que estava à margem do caminho pôs-se à sua frente e dirigiu-lhe a seguinte pergunta: “Tu, que és o grande conhecedor de teologia e das escrituras, respondeu-me: quem é maior, o Profeta Mohammed ou Mayazid Bistami?” – Rumi respondeu sem hesitar: “Mohammed foi sem dúvida o maior de todos os santos e profetas”. – “Se é assim”, replicou Shams,”como explicas que Mohammed disse: ‘Não te conhecemos, Senhor, como deves ser conhecido’, enquanto Bayazid exclamava: ’Glória a mim! Imensa é minha glória.’?” Ao ouvir isso, Rumi desmaiou. Quando despertou, levou Shams para sua casa e lá ficaram a sós, em santa comunhão por 40 dias.

Segundo outra versão desse encontro, Rumi ensinava seus discípulos em sua casa e tinha diante de si uma pilha de livros. Durante a aula um homem entrou e, após cumprimentar os presentes, sentou-se num canto da sala. Apontando para os livros, o visitante perguntou: “O que é isso?” Rumi, incomodado pela interrupção, respondeu secamente: “Tu não sabes o que é isso”. Imediatamente os livros incendiaram-se. Perplexo e assustado, Rumi dirigiu-se ao estranho: “O que é isso?” O estranho apenas repetiu: “Tu não sabes o que é isso”, e retirou-se tranquilamente da sala. Rumi abandonou a classe e saiu desesperado em busca do estranho, mas não pôde encontrá-lo.

Uma terceira versão da mesma história foi contada por Jami, grande poeta persa do séc. 15:

Enquanto falava a seus discípulos, Rumi empilhara seus livros à borda de um tanque. Shams apareceu e perguntou o que continham aqueles livros. Rumi respondeu: “Aqui só há palavras, em que te podem interessar?” Shams ud-Din apanhou os livros e jogou-os dentro da água. Rumi esbravejou, furioso: “O que fizeste, dervixe? Alguns desses livros continham manuscritos importantes de meu pai, que não se encontram em nenhum outro lugar”. Então, para o espanto de Rumi e dos discípulos, Shams enfiou a mão no fundo do tanque e retirou intactos, um a um, todos os livros. Maulana (Rumi) lhe perguntou: “Qual o segredo?” Shams ud-Din respondeu: “Isso é que se chama prazer ou desejo de Deus (dhawq), e êxtase ou estado espiritual (Hal); tu não sabes nada o que é isso”.

Rumi, Poemas Místicos, Divan de Shams de Tabriz

 

  • Francisco

    Diria apenas que Rumi, me transporta a introspecção, em profundo silêncio, onde respiro o sentir doce do coração. .

  • Ivone de Souza Diniz Leite

    Amo ler Rumi.

  • Eu ficaria a eternidade lendo Rumi e Tagore.
    Seus poemas se contêm em minha alma, como o Amor.

    Gratidão plena.

    Helena.

  • Fernanda

    Esses poemas nos tocam profundamente!… :D É como o som de violinos de Mozart, ou uma pintura de Da Vinci ou Michelangelo… Faz-me sentir como um dos peixes do “Sermão de Santo Antonio”… Tal como uma pedra atirada na água, provoca-nos ondulações na alma… Ou como um jarro, que sob os efeitos da Música, vibra… Ou as cordas de um violão… Ou um sino… Nessas horas, sinto que preciso embeber-me de Deus para que a Paz se restabeleça nos meus recônditos… E não posso fazer outra coisa que não seja ouvir mais e mais… ou Agir!… Giro, giro com o Universo… Ai, meu Deus, girei mesmo, divagando aqui… rsrs ^^”

    Vcs fazem um trabalho maravilhoso divulgando todos esses textos no site! Namastê! Paz Inverencial! _/\_ Muito obrigada!

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