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title: "Poemas sufis para Deus"
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excerpt: "Rumi e a Evolução da Forma Toda forma que vês tem seu arquétipo no mundo sem-lugar. Se a forma esvanece, não importa, permanece o original. As belas figuras que viste, as sábias palavras que escutaste, não te entristeças se pereceram...."
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### **R**umi e a Evolução da Forma

Toda forma que vês  
 tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.  
 Se a forma esvanece, não importa,  
 permanece o original.

As belas figuras que viste,  
 as sábias palavras que escutaste,  
 não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,  
 o rio dá água sem cessar.  
 Por que te lamentas se nenhum dos  
 dois se detém?

A alma é a fonte,  
 e as coisas criadas, os rios.  
 Enquanto a fonte jorra, correm os rios.  
 Tira da cabeça todo o pesar  
 e sorve aos borbotões a água deste rio.  
 Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,  
 uma escada foi posta diante de ti,  
 para que escapasses.  
 Primeiro, foste mineral;  
 depois, te tornaste planta,  
 e mais tarde, animal.  
 Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,  
 com conhecimento, razão e fé.  
 Contempla teu corpo; um punhado de pó  
 vê quão perfeito se tornou!

[https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo6-gnosisonline.png](https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo6-gnosisonline.png)
Quando tiveres cumprido tua jornada,  
 decerto hás de regressar como anjo;  
 depois disso, terás terminado de vez com a terra,  
 e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,  
 entra naquele oceano,  
 e que tua gota se torne o mar,  
 cem vezes maior que o Mar de Omã.

Abandona este filho que chamas corpo  
 e diz sempre Um; com toda a alma.  
 Se teu corpo envelhece, que importa?  
 Ainda é fresca tua alma.

### **A**bdula Ansari – As Duas Caabas

“Mesmo uma prisão  
 Irradia felicidade  
 Se o amor por Ti  
 Enche o coração.

Abençoada é a escravidão  
 Que Teu serviço compele,  
 Teus servos são felizes  
 Em suas servidões.

Há duas Caabas  
 A Caaba construída na terra  
 E a Caaba do coração.

A primeira é aquela que os pés  
 Dos peregrinos frequentam;  
 A outra é o local secreto  
 Que os Buscadores da Verdade descobrem.

É a primeira  
 Que enche os olhos dos fiéis;  
 A outra, apenas o devoto encontra  
 Sob o olhar de Deus mesmo.

[https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo9-gnosisonline1.jpg](https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo9-gnosisonline1.jpg)
A peregrinação à Caaba terrestre  
 É uma questão de disciplina formal;  
 A descoberta da Caaba do coração,  
 Depende da graça de Deus.

Numa, os peregrinos bebem do poço de Zam-Zam;  
 A outra abre suas fontes  
 Ao manar dos suspiros.

A Caaba terrestre  
 É guardada pela montanha Irfat,  
 O templo do coração  
 É radiante com a luz de Deus.

Da Caaba terrestre  
 ídolos de pedra foram removidos;  
 Da Caaba do coração  
 A voracidade e o desejo são destronados.”

### **H**akim Sanai – Ele Sempre Sabe

ELE SEMPRE SABE:  
 Ele conhece previamente teu mais íntimo pensamento. Ele percebe o que as suas criaturas necessitam antes mesmo que tenham concebido seu desejo.  
 Ele sabe do passo de uma formiga sobre uma pedra na escuridão.  
 Ele sempre sabe o que se passa na mente dos homens: farias melhor se refletisses sobre isso.  
 Se ages mal, há duas maneiras de encará-lo: ou pensas que Ele não o sabes, – e me espanto com a tua falta de fé ou então pensas que Ele sabe, ainda assim persistes, – e me espanto tua vil impertinência.  
 Podes ser verdade que nenhum homem conheça teus segredos; mas Deus os conhece; Ele não é menos que um homem; certamente isto significa que ele conhece teu coração?  
 Então te afasta deste malfeito, para que em teu último dia não te afogues no mar de tua própria vergonha.

### **H**akim Sanai – Ele É o Teu Pastor

ELE É O TEU PASTOR:  
 Ele é o teu pastor e preferes o lobo.  
 Ele te convida a si, no entanto permaneces sem alimento.  
 Ele te dá a sua proteção, no entanto estás profundamente adormecido.  
 Bem feito para ti, tolo, insensato e presunçoso!  
 Ele cura nossa natureza desde dentro.  
 Ele é mais bondoso conosco do que nós mesmos o somos.  
 Uma mãe não ama seu filho com metade do amor que Ele dedica.  
 Sua bondade torna o indigno digno; e em troca Ele se contenta com a gratidão e paciência do seu servo.  
 Quebraste tua palavra, ainda assim Ele mantém sua palavra contigo: Ele é mais leal do que o és contigo mesmo.

### **R**umi – A Casa dos Hóspedes

[https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo1-gnosisonline.jpg](https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo1-gnosisonline.jpg)
O ser humano é uma casa de hóspedes.  
 Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos  
 Mesmo que seja uma multidão de dores  
 Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.  
 Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.  
 Eles podem estar te limpando  
 para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,  
 encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem,  
 porque cada um foi enviado  
 como um guardião do além.

### **R**umi – Samâ

Vem, vem, tu que és a alma  
 da alma da alma do giro!  
 Vem, cipreste mais alto  
 do jardim florido do giro.

Vem, não houve nem haverá  
 jamais alguém como tu.  
 Vem e faz de teus olhos  
 o olho desejante do giro.

Vem, a fonte do sol se esconde  
 sob o manto da tua sombra.  
 És dono de mil Vênus  
 nos céus desse remoinho.

O giro canta tuas glórias  
 em mil línguas eloquentes.  
 Tento traduzir em palavras  
 o que se sente no giro.

Quando entras nessa dança,  
 abandonas os dois mundos;  
 é fora deles que se encontra  
 o universo infinito do giro.

Muito alto, distante se vê  
 o teto da sétima esfera,  
 mas muito além é que encontras  
 a escada que leva ao giro.

O que quer que exista, só existe no giro;  
 quando danças, ele sustenta teus pés.  
 Vem, que este giro te pertence  
 e tu pertences ao giro.

O que faço quando vem o amor  
 e se agarra ao meu pescoço?  
 Seguro-o, aperto-o contra o peito  
 e arrasto-o para o giro!

E quando as asas das mariposas  
 abrem-se ao brilho do sol  
 todos caem na dança, na dança  
 e jamais se cansam do giro!

### **N**ossa Canção Vitoriosa

Nesse dia final,  
 quando me ponham a mortalha,  
 não penseis que minha alma  
 permanecerá neste mundo.

Não chores por mim, gritando:  
 “Que tragédia, que tragédia!”  
 Cairias assim nas armadilhas  
 de um enganoso espelhismo.  
 Essa seria a verdadeira tragédia!

[https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo10-gnosisonline.jpg](https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo10-gnosisonline.jpg)
Quando vires meu corpo inanimado passar,  
 não griteis: “Se foi!, se foi!”,  
 pois será meu momento de união,  
 de aceitar o abraço eterno do Amado.

Quando me introduzirem na cova,  
 não me digais: “Adeus, adeus!”  
 A tumba é apenas um véu  
 que oculta o esplendor do Paraíso.

Pensa na aurora se houveres visto o ocaso.  
 Que dano fez pôr-se à Lua ou ao Sol?  
 O que é crepúsculo a vossos olhos  
 É alvorada para mim.  
 O que é para vocês uma prisão  
 É para minha alma um infinito jardim.

Crescerá toda semente no solo enterrada.  
 Haveria de ser diferente à semente humana?  
 Sai cheio cada balde que desce ao poço.  
 Deveria queixar-se me em vez de água  
 Retiro o próprio José (a beleza)?

Não busqueis aqui as palavras,  
 Busca-as em outro lugar.  
 Canta para mim no silêncio do coração  
 E me erguerei da terra para ouvir  
 Vossa vitoriosa canção.

### **R**umi – Quem Está em Minha Porta?

“Quem está em minha porta?”, perguntou Ele.  
 “Teu humilde servo”, respondi eu.  
 “Que é o que te traz aqui?”  
 “Saudar-te, meu Senhor.”

“Quanto tempo mais viajarás?”  
 “Até que TU me detenhas.”  
 “Quanto tempo mais ferverás no fogo?”  
 “Até que esteja purificado. Este é meu juramento:  
 No altar do amor entrego riqueza e posição.”

“Tens defendido teu caso, mas não tens testemunhos.”  
 “Minhas lágrimas são minhas testemunhas,  
 a palidez de meu rosto são minhas provas.”  
 “Teu testemunho não tem validade:  
 Teus olhos estão demasiado úmidos para ver.”  
 “Pelo esplendor de Tua justiça  
 meus olhos tornaram-se limpos e sem imperfeição.”

“Que buscas?”  
 “Ter-te como Amigo permanente.”  
 “Que queres de Mim?”  
 “Tua abundante Graça.”  
 “Quem foi teu companheiro na viagem?”  
 “O pensamento de Ti, meu Rei.”  
 “Que é o que te trouxe aqui?”  
 “A fragrância de Teu vinho.”

“Que é o que mais te agrada?  
 “A companhia do Soberano.”  
 “Que é o que n’Ele encontras?”  
 “Centenas de milagres.”  
 “Por que está o palácio deserto?”  
 “Porque todos temem o ladrão.”  
 “Quem é o ladrão?”  
 “Quem me mantenha apartado de Ti.”

“Onde encontras segurança?”  
 “No serviço e na renúncia.”  
 “Que te oferece a renúncia?”  
 “A esperança de salivação.”

[https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo4-gnosisonline.png](https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo4-gnosisonline.png)
“Onde se acha a graça?”  
 “Na presença de Teu amor.”  
 “Como te aproveitas desta vida?”  
 “Mantendo-me fiel a mim mesmo.”

Chegado está o momento do silêncio.  
 Se lhes falo de Sua verdadeira essência,  
 sairás de vosso Ser voando,  
 E nem porta nem telhado os poderiam reter!

### **N**os Braços do Amado

Como línguas de fogo na dança de amor,  
 ó Bem Amado, se para mim.  
 Como calor ardente,  
 ó Bem Amado, se assim para mim.

Com anelo se consome minha vela,  
 com lágrimas de cera vermelha.  
 Como mecha de una vela fundida,  
 ó Bem Amado, se assim para mim.

Agora que empreendemos o caminho do amor  
 já não podemos dormir na noite.  
 Como o que toca o tambor na taberna da embriaguez,  
 ó Bem Amado, se assim para min.

Despertos estão os amantes na noite escura;  
 não os molesteis sugerindo-lhes que durmam,  
 tão só querem estar em Amor juntos,  
 ó Bem Amado, se assim para mim.

A união é um rio que brama rumo ao mar, e hoje a lua beija as estrelas,  
 quando Majnum se converte em Layla, ó Bem Amado, se assim para mim.

Deus se transfigurou em todas as coisas  
 e honrou a seu poeta com bondade.  
 Tudo quanto toco e vejo se transforma em fogo de amor,  
 ó Bem Amado, se assim para mim.

### Rumi e a Morte

Morri como mineral e tornei-me planta,  
 Morri como planta e tornei-me animal,  
 Morri como animal e tornei-me homem,  
 Por que temer? Quando fui diminuído pela morte?

Rumi, *Masnavi*

### Rumi – Não Encontrarás

Segura o manto de seus favores,  
 Pois ele logo desaparecerá.  
 Se o retesa como a um arco,  
 Ele escapará como flecha.  
 Vê quantas formas ele assume,  
 Quantos truques ele inventa.  
 Se está presente em forma,  
 Então há de sumir pela alma.

[https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo5-gnosisonline.jpg](https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2012/07/sufismo5-gnosisonline.jpg)
Se o procuras no alto céu,  
 ele brilha como a lua no lago;  
 entras na água para capturá-lo  
 e de novo ele foge para o céu.

Se o procuras no espaço vazio  
 lá está, no lugar de sempre;  
 caminhas para este lugar  
 e de novo ele foge para o vazio.

Como a flecha que sai do arco,  
 Como o pássaro que voa da tua imaginação,  
 O absoluto há de fugir sempre  
 Do que é incerto.

“Escapo daqui e ali,  
 Para que minha beleza  
 Não se prenda a isso ou aquilo.  
 Como o vento, sei voar,  
 E por amor à rosa, sou como a brisa;  
 Também a rosa há de escapar do outono.”

Vê como se eclipsa este ser:  
 Até seu nome se desfaz  
 Ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo.

Ele te escapará à menor tentativa  
 De fixar sua forma numa imagem:  
 A pintura sumirá da tela,  
 Os signos fugirão de teu coração.

Rumi, Jalal ud-Din. *Poemas Místicos, Divan de Shams de Tabriz*

**O Encontro de Dois Oceanos – Rumi e Shams de Tabriz**

**As Três Versões de “O encontro de dois oceanos”.**

Vindo de *madrassa*(escola religiosa muçulmana) acompanhado de seus discípulos, Rumi cavalgava um burrico. Ao passar perto de um caravançarai, um homem que estava à margem do caminho pôs-se à sua frente e dirigiu-lhe a seguinte pergunta: “Tu, que és o grande conhecedor de teologia e das escrituras, respondeu-me: quem é maior, o Profeta Mohammed ou Mayazid Bistami?” – Rumi respondeu sem hesitar: “Mohammed foi sem dúvida o maior de todos os santos e profetas”. – “Se é assim”, replicou Shams,”como explicas que Mohammed disse: ‘Não te conhecemos, Senhor, como deves ser conhecido’, enquanto Bayazid exclamava: ’Glória a mim! Imensa é minha glória.’?” Ao ouvir isso, Rumi desmaiou. Quando despertou, levou Shams para sua casa e lá ficaram a sós, em santa comunhão por 40 dias.

Segundo outra versão desse encontro, Rumi ensinava seus discípulos em sua casa e tinha diante de si uma pilha de livros. Durante a aula um homem entrou e, após cumprimentar os presentes, sentou-se num canto da sala. Apontando para os livros, o visitante perguntou: “O que é isso?” Rumi, incomodado pela interrupção, respondeu secamente: “Tu não sabes o que é isso”. Imediatamente os livros incendiaram-se. Perplexo e assustado, Rumi dirigiu-se ao estranho: “O que é isso?” O estranho apenas repetiu: “Tu não sabes o que é isso”, e retirou-se tranquilamente da sala. Rumi abandonou a classe e saiu desesperado em busca do estranho, mas não pôde encontrá-lo.

Uma terceira versão da mesma história foi contada por Jami, grande poeta persa do séc. 15:

Enquanto falava a seus discípulos, Rumi empilhara seus livros à borda de um tanque. Shams apareceu e perguntou o que continham aqueles livros. Rumi respondeu: “Aqui só há palavras, em que te podem interessar?” Shams ud-Din apanhou os livros e jogou-os dentro da água. Rumi esbravejou, furioso: “O que fizeste, dervixe? Alguns desses livros continham manuscritos importantes de meu pai, que não se encontram em nenhum outro lugar”. Então, para o espanto de Rumi e dos discípulos, Shams enfiou a mão no fundo do tanque e retirou intactos, um a um, todos os livros. Maulana (Rumi) lhe perguntou: “Qual o segredo?” Shams ud-Din respondeu: “Isso é que se chama prazer ou desejo de Deus (*dhawq),*e êxtase ou estado espiritual (Hal); tu não sabes nada o que é isso”.

Rumi, *Poemas Místicos, Divan de Shams de Tabriz*
