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title: "Mestres sufis – Fakhrani Iraqi"
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*“Tu és o mundo –*  
 *mas como Tu podes ser visto?*  
 *não és também a alma?*  
 *porém como podes Te esconder?*  
 *Como podes Te manifestar?*  
 *Pois estás sempre oculto.*  
 *Mas como podes estar sempre oculto*  
 *se és eternamente visto?*  
 *Oculto, manifesto,*  
 *ambos a um só tempo…*  
 *Não és isto, nem aquilo –*  
 *Mas és ambas as coisas.*  
 *Se Tu és tudo*  
 *então quem são todas estas pessoas?*  
 *E se eu não sou nada*  
 *por que tanta agitação?*  
 *(Lama’at)*

Plotino declarou que a percepção interior, a razão e a experiência devem se combinar para quem quer que almeje conhecer verdadeiramente. No Islã, bem como em todas as religiões formais baseadas na revelação, a experiência é suplantada pelo *afflatus* da revelação – o *Alcorão* e os *hadith*, ou ditos tradicionais atribuídos a Maomé. Este aspecto do conhecimento espiritual putativo é guardado e protegido pelos *mutakallimum*, ou teólogos, e os *‘ulama*, os versados na lei Corânica.

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O movimento Mu’tazalita introduziu a deliberação racional nos estudos Islâmicos apelando ao poder do intelecto e à experiência cotidiana. Os Sufis respeitavam ambas as tradições, mas suplementaram os requisitos para o conhecimento espiritual com a *shuhud*, contemplação, e a *dhawq*, a percepção intuitiva que provém da experiência direta. Enquanto que os teólogos falavam de Alá (Deus) com reverência, os filósofos referiam tudo a *wajib* *al-wujud*, o ser necessário; e os sufis, usando com liberdade uma pletora de termos, eram inclinados para o *al-haqq*, o real, e para *wahdat al-wujud*, a radical unidade do ser.

Embora a liberdade interna dos místicos Sufis deixasse os teólogos e os filósofos desconfiados, uma religião sem sacerdotes não poderia negar a possibilidade intrínseca da teofania. Nem impediu os místicos de professarem uma fé e entendimento filosófico profundos.

Assim com os teólogos muçulmanos aprenderam a fiar-se na fé, os filósofos deram voz à esperança, e os Sufis se tornaram os porta-vozes por excelência do amor divino. O florescimento de pensamento criativo nos séculos 12 e 13 produziu uma pequena idade dourada para os Ensinamentos Sufis, e Fakhruddin ‘Iraqi emergiu como uma estrela brilhante naquela seleta constelação de luminares que iluminou o caminho para outros.

Um mês antes de Fakhruddin Ibrahim nascesse, seu pai sonhou com Ali, o genro de Maomé e patrono dos sufis. Uma pessoa colocou uma criança no chão diante de ‘Ali, que a apanhou e, entregando-a ao pai, disse: “Toma nosso ‘Iraqi e cria-o com desvelo, pois ele há de ser um conquistador do mundo”. Assim, o nascimento de Fakhruddin Ibrahim, em 1213, foi recebido com grande alegria. Ele nasceu na vila de Kamajan perto de Hamadan, na região da Pérsia conhecida como ‘Iraq-i ‘ajam, e ele veio a ser conhecido como Fakhruddin ‘Iraqi. A criança entrou na escola com a idade de cinco anos e em nove meses já conhecia o *Alcorão* de cor.

Com oito anos ele já era famoso em toda a região por suas recitações melodiosas e tocantes dos textos sagrados. Ele se voltou com igual habilidade para outros estudos, e com dezessete anos já havia aprendido tanto as *al-’ulum an-naqliyyah* – as ciências transmitidas – como as *al-’ulum al-’aqliyyah*– as ciências surgidas pela razão e investigação humanas. Um dia um heterogêneo grupo de Qalandars chegou à cidade de ‘Iraqi, e sua vida mudou para sempre.

Os Qalandars eram místicos que perambulavam como devotos do Divino sem residência fixa. Renunciando à riqueza, posição e estima pessoais, eles viam as convenções sociais como armadilhas e máscaras da hipocrisia, e fugiam da aprovação dos leigos. Uma vez que os bandidos e párias achavam conveniente imitar as maneiras Qalandar, os verdadeiros andarilhos sem casa eram ainda mais denegridos e desprezados – uma ironia com que não se importavam.

Como os outros davam sua hospitalidade com má vontade a este pequeno bando perambulante, ‘Iraqi sentiu surgir em seu coração uma grande efusão do amor, e quando os Qalandars partiram ele ficou desolado. Jamais hesitante, ‘Iraqi abandonou seus livros e o manto que o distinguia como um estudante de teologia. Não levando nada consigo, apressou-se para juntar-se ao grupo, e quando o encontrou, improvisou os seguintes versos:

![Image](https://www.gnosisonline.org/wp-content/uploads/2020/05/sufismo1-171x240.jpg)

*“Estive em Meca, no círculo da Caaba*  
 *mas eles impediram minha entrada,*  
 *dizendo: ‘Fora daqui! Que mérito ganhaste aí fora para te admitíssemos aqui dentro?*  
 *Então, na noite passada, eu bati na porta da taverna.*  
 *De dentro chamou uma voz: ‘ ‘Iraqui! Entra!*  
 *Pois tu és um dos escolhidos!’”*

Os Qalandars entenderam imediatamente que esta referência à porta da taverna significava o umbral da câmara do coração onde se pode encontrar o vinho da sabedoria, e então eles o acolheram em seu meio.

Juntos, eles perambularam pela Pérsia Oriental até a Índia, chegando por fim a Multan (agora o Paquistão). Lá eles encontraram o *shaykh* Baha’uddin Zakariyya’ Multani, o terceiro grande mestre da tradição Suhrawardi, e que ainda em vida foi conhecido como *quth*, *kabir* e *munir*, ou seja, o Paradigma da Época, o Grande, e o Iluminador. Enquanto dava refrescos aos Qalandars, os olhos de Baha’uddin caíram sobre ‘Iraqi.

Ele disse a um discípulo: “Este jovem está completamente preparado, deve ficar conosco”. De sua parte, ‘Iraqi sentiu uma tal atração para o *shaykh* que ele chegou a temer por seu estado mental e insistiu que ele e seus companheiros partissem imediatamente. Com seu apelo, os amigos partiram para Délhi, onde permaneceram por algum tempo. Quando partiram para Somnath uma tempestade os separou, e ‘Iraqi foi forçado a voltar para Délhi. Considerando este revés como um sinal, ‘Iraqi voltou sozinho para Multan e colocou-se aos pés de Baha’uddin.

O *shaykh* aceitou-o e instruiu-o a entrar em um retiro completamente isolado. Dentro de poucos dias, contudo, ‘Iraqi irrompeu em versos extáticos. Discípulos chocados relataram sua cantoria impetuosa ao *shaykh*, que veio ouvir. “Teu trabalho terminou”, disse o *shaykh*, e, chamando ‘Iraqi para fora de sua cela, vestiu-o pessoalmente com o manto do discípulo maduro e casou-o com sua própria filha. Uma vez que a tradição Suhrawardi era conservadora em sua conduta exterior, muitos dos discípulos do *shaykh* se ressentiram das liberdades permitidas a este místico espontâneo.

Não obstante, ‘Iraqi permaneceu com Baha’uddin, teve um filho e serviu fielmente seu mestre durante vinte e cinco anos. Quando o *shaykh* sentiu a morte se aproximar, indicou ‘Iraqui como seu sucessor. Depois de providenciar que Baha’uddin tivesse um sepulcro digno – que existe até hoje em Multan – ‘Iraqi, sabendo que muitos dos discípulos antigos estavam planejando sabotar sua liderança, renunciou ao cargo e partiu para Meca com alguns poucos amigos.

‘Iraqi embarcou para Omã, onde já havia obtido uma reputação como poeta inspirado. O sultão deu-lhe boas-vindas, alojou o grupo em seu próprio palácio e tornou ‘Iraqi o *shaykh* principal da região. Quando ‘Iraqi havia já descansado, pediu permissão para viajar a Meca, mas o sultão demonstrou tal relutância em deixá-lo ir que ‘Iraqi sentiu que seria obrigado a partir em segredo. Ele viu-se honrado em toda parte a que chegasse, e sua estada em Meca e Medina foi de fervorosa alegria e profunda meditação. Por fim ele decidiu ir a Damasco, e dois de seus amigos de Multan viajaram com ele.

De lá eles viajaram para Rum (a moderna Turquia) e se encaminharam para Konya. Lá eles encontraram dois notáveis sufis, Jalaluddin Rumi e Sadruddin Qunawi, o sucessor de Ibn al-’Arabi e principal *shaykh* de Konya. A amizade de ‘Iraqi com Qunawi, que recebeu iniciação na ordem Suhrawardi, haveria de perdurar até sua morte.

O intelecto de ‘Iraqi foi refinado com este relacionamento, assim como seu espírito havia sido revigorado por sua amizade com Baha’uddin. Quando ‘Iraqui chegou a Konya, juntou-se aos estudantes que estavam ouvindo as palestras de Qunawi sobre o *Fusus al-hikam* (*Os Selos da Sabedoria*) de Ibn al-’Arabi.

Depois de ouvir a cada prédica, ‘Iraqui compunha uma meditação sobre o que havia ouvido, e assim nasceu sua grande obra, o *Lama’ at* (*Lampejo*s) (de luz). Quando apresentou o *Lama’ at* para Qunawi, ele o leu, beijou-o como um muçulmano beija um escrito sagrado, e disse: “Iraqui, tu divulgaste o segredo das palavras dos homens”.

‘Iraqui permaneceu íntimo de Qunawi. Mesmo quando ele viajou para Medina e Damasco seguindo um sonho em que o falecido Ibn al-’Arabi ordenou que ele visitasse sua tumba, ‘Iraqui escreveu longas e amorosas cartas para Qunawi, implorando ao seu “segundo mestre” para aparecer-lhe em sonho e ordenar-lhe que voltasse. ‘Iraqui reunia discípulos em seu redor com facilidade, incluindo o administrador de Rum, Amir Mu’inuddin Parwanah.

A despeito da completa falta de cuidado para consigo mesmo de ‘Iraqui, Parwanah insistiu em construir um abrigo para ele em Tokat e o visitava diariamente. Nesta época o imperador mongol Abaka governava Rum, e o imperador mameluco Baybars o atacou a partir do Cairo. Em 1277, Baybars venceu as forças de Abaka e foi coroado imperador de Rum. Parwanah, que havia servido Abaka, fugiu, mas seu filho foi capturado e levado para o Cairo.

Quando os mamelucos se retiraram do Egito, Abaka acusou Parwanah de traição. Sabendo que seria executado, Parwanah visitou ‘Iraqui e deu-lhe uma bolsa cheia de pedras preciosas. Ele pediu a ‘Iraqui que as usasse para resgatar seu filho e tornar o menino um Sufi indiferente ao poder político.

Rum e a Anatólia caíram na rebelião e na desordem devido às guerras, e Abaka enviou seu irmão, Kangirty, para restabelecer o governo mongol. Suspeitando que ‘Iraqui estivesse de posse da riqueza do infeliz Parwanah, Kangirtay enviou seu vizir erudito para espionar ‘Iraqui. O vizir ficou tão encantado e inspirado pelas atitudes e discursos de ‘Iraqui que esqueceu completamente sua missão secreta. Quando ele voltou para Kangirtay, contudo, ele descobriu que haviam sido enviadas tropas para prender ‘Iraqui. Ele rápido avisou ‘Iraqui e incitou-o a fugir, mandando uma bolsa com mil dinares para ajudar na fuga.

‘Iraqui deixou a atribulada Tokat e viajou primeiro para Sínope, governada pelo filho de Parwanah, e depois para o Cairo. Lá ele solicitou e obteve uma audiência com o sultão e ofereceu, ainda fechada, a sacola de joias. Quando o sultão soube que este ato havia sido uma promessa a Parwanah e que ‘Iraqui não havia ficado com nada para si mesmo, libertou o filho de Parwanah e concedeu-lhe os privilégios de príncipe, e sentou-se aos pés de ‘Iraqui para ser instruído. Maravilhado com as palavras de ‘Iraqui, indicou-o como principal *shaykh* do Cairo e ordenou uma procissão geral para assinalar a indicação.

No dia seguinte o vizir do sultão vestiu ‘Iraqui com finas roupas e um belo turbante, e, colocando-o em um cavalo, reuniu todos os eruditos, nobres e generais da corte a pé em seu redor. Olhando em seu redor, ‘Iraqui subitamente jogou longe o turbante e sentou-se quieto por alguns minutos.

Então, inesperadamente, recolocou o turbante e fez sinal para que a procissão prosseguisse. Notícias deste estranho comportamento chegaram ao sultão, que pediu uma explicação para ‘Iraqui. ‘Iraqui assinalou que nenhum outro homem da época havia recebido tamanho respeito, e que ele havia removido o turbante até certificar-se de que não havia mais nenhum sinal de orgulho ou egoísmo em seu peito. O sultão, comovido por tamanha simplicidade espiritual em um mundo de ambição, decadência e esplendor, dobrou sua pensão. Mas ‘Iraqui queria voltar para Damasco, e com o tempo convenceu o sultão. Foram soltos pombos-correio de modo que cada lugar no caminho fosse informado e pudesse acolher o ilustre peregrino.

Mesmo antes de ‘Iraqui deixar o Cairo, o rei de Damasco indicou-o *shaykh* principal de sua cidade, e ele foi recebido entusiasticamente pela população local. Seis meses depois de ‘Iraqui chegar em Damasco, seu filho, Kabiruddin, veio de Multan para juntar-se a ele. Depois que ‘Iraqui havia deixado o posto de sucessor de Baha’uddin, o filho do *shaykh* havia assumido seu lugar, para ser sucedido, por sua vez, por Kabiruddin, o qual, como seu pai, renunciou a ele. Um sonho o havia instruído a partir para Damasco, e um outro sonho havia dito aos discípulos para que o deixassem ir.

Kabiruddin viveu com seu pai por alguns meses, quando uma súbita moléstia atingiu ‘Iraqui. Ele caiu num sono febril por cinco dias. No sexto, despertou e chamou seu filho e companheiros. Dando-lhes adeus, ele deu voz a uma quadra:

“Quando, por Decreto, este mundo foi criado  
 o trabalho não foi feito depois da falta de Adão;  
 mas do destino naquele Dia assinalado  
 ninguém escapará, nem jamais escapou”.

‘Iraqui “bebeu a taça do destino” em 23 de novembro de 1289, e toda a cidade lamentou. Ele foi enterrado no cemitério de Salihiyyah ao lado do túmulo de Ibn a-’Arabi. Kabiruddin foi indicado seu sucessor, e quando ele também deixou os laços da carne mortal, foi enterrado perto de seu pai. Estes túmulos se perderam no processo de restauração da tumba de Ibn al-’Arabi empreendido pelo sultão Selim no século 16. Não obstante, mesmo hoje, quando os peregrinos visitam o memorial de Ibn al-’Arabi, dizem: “Este foi o oceano dos árabes”, e voltando-se para o outro lado, dizem de ‘Iraqui: “Este foi o oceano dos persas”.

Ao contrário de Ibn al-’Arabi, que o inspirou profundamente, ‘Iraqui, não escreveu tratados elaborados sobre assuntos gnósticos. Ele havia começado em Multan a escrever poesia, principalmente lírica e quadras. Perto do fim de sua vida ele compôs a *‘Ushshaq-nama (Canção dos Amantes),*que dedicou ao vizir que o havia ajudado a escapar dos soldados de Kangirtay, e alguns poemas para parentes de Parwanah em Sínope.

O *Lama’ at,* contudo, permanece como sua obra-prima e como uma das maiores obras Sufis, no qual as doutrinas da gnose, *al-ma ‘rifah*, são expressas na linguagem do amor, *al-mahabbah.* O primeiro deles havia sido o *Centelha do Amor*, de Ahmad Ghazali, o irmão de Al-Ghazali, e o segundo foi o *Sobre a Realidade do Amor*, de Shihabuddin Suhrawardi.

O *Lama’ at* de ‘Iraqui, o mais belo trabalho em seu gênero na literatura persa, inspirou toda uma tradição de tratados poéticos na Pérsia e na Índia. Olhando para o Oriente, ele funde *tashbih* e *tanzih*, imanência e transcendência, de modo que o Divino, o Sempre-incognoscível em Si mesmo, é espelhado em toda parte e a todo o tempo. Olhando para o Ocidente, e especialmente para a tradição platônica, propõe uma cadeia desde o amor pelas formas – *‘ishq-i majazi*, o amor aparente – até o amor pelo Divino – *‘ishq-i haqiqi*, o amor verdadeiro – onde a beleza formal foi transmutada em *al-jamil*, a Beleza em Si mesma, um Nome Divino.

Os teólogos gradualmente e a contragosto permitiram entrada à palavra *mahabba*, amor, no vocabulário do discurso sagrado, porque ela tem uma conotação de “obediência”. Em torno do século 10º os filósofos se sentiram livres para falar do *hubb’ udhri*, o amor Platônico, o amor casto e contemplativo pelo ideal. ‘Iraqui chocou os ortodoxos e até mesmo os Sufis ao insistir no *‘ishq*, o amor apaixonado, para enfatizar o ardente amor da alma pelo Divino, pois ele acreditava que a alma devia experimentar a consciência da separação do Amado bem como a de sua união com o Divino. Só quando a doçura da separação pudesse ser saboreada espiritualmente o devoto estaria pronto para retornar voluntariamente de uma teofania abrangente para o mundo atribulado, a fim de ajudar os outros.

No Islã a profissão fundamental de fé havia sido sempre a Shahada, que diz: “La ilah illa Allah” (Não há outro Deus senão Alá, ou Deus), e Alá significa “o (Único) Deus”, O *Lama’ at*é uma elaboração de ‘Iraqui de sua reformulação da Shahada: “La ilaha illa’l-’ishq” (Não há outro deus senão o Amor), um aforismo usado frequentemente pelos sufis turcos de hoje.

“Remoto está o Amor acima das aspirações humanas,  
 muito acima das lendas de união e separação;  
 Pois o que transcende a imaginação  
 escapa de toda metáfora e explicação”.

‘Iraqui não pretendia que sua própria intuição fosse suficiente para o entendimento. Seu *Lama’ at* foi uma resposta aos ensinamentos de Ibn al-’Arabi; ele seguiu dois mestres em sua vida, e começou sua obra com uma invocação de Maomé como Mestre arquetípico. Como o principal guru dos sufis, Maomé é feito dizer:

“No paraíso da teofania eu sou o Sol:  
 Não vos admireis que cada átomo manifeste a mim.  
 … Eu sou Luz. Todas as coisas são vistas no meu desvelamento  
 e de minuto a minuto minha radiância aumenta.  
 Os Nomes Divinos frutificam em mim.  
 Vêde: Eu sou o espelho da Essência brilhante.  
 Estas luzes que ascendem no Oriente do Nada  
 são eu mesmo, todas elas – mas eu sou ainda mais”.

Se o Amor, *al-’ishq*, é a Deidade sem atributos, então tanto o amante como Amado derivam d’Ela, “mas o Amor sobre o Seu Trono poderoso é purificado de toda entificação, no santuário de Sua Realidade santo demais para ser tocado pela interioridade ou pela exterioridade”. Tanto o amante, cuja alma está voltada para o Divino, quanto o Amado, que é a mais excelsa visão da Deidade, são espelhos um do outro.

A existência dos mundos visível e invisível não passa de uma manifestação do Amor como luz. Esta teofania primordial é a um tempo as leis ocultas da Natureza e sua realização consciente no Homem.

“A Manhã da Manifestação suspirou, a brisa da Graça soprou gentilmente, ondas se agitaram no mar da Generosidade… O amante, então, saciado com a água da vida, despertou do sono da não-existência, vestiu a roupa do ser e atou em volta de sua testa o turbante da contemplação; cingiu o cinturão do desejo em seu flanco e caminhou com os pés da sinceridade sobre a senda da Busca”.

A Unidade da Fonte, além mesmo do Um quando contrastado com o Dois, impele a busca do amante por aquilo que, de fato, é ele. A questão espiritual consiste em infundir vida em imagens cada vez mais sutis – primeiro no mundo, e depois na consciência – apenas para descartá-las como representações inadequadas da meta, até que mesmo as ideias de “busca” e “meta” sejam completamente transcendidas. A questão “Onde está o Amado?” e a questão “Quem sou eu?” são a mesma.

*“Ouve, abelhudo,*  
 *tu queres ser Tudo?*  
 *Então vai,*  
 *vai e torna-te Nada…*  
 *Não imagine que este caminho*  
 *tenha dois rumos:*  
 *Raiz e ramos*  
 *são Uma só coisa.*  
 *Vê de perto: tudo é Ele –*  
 *Mas Ele se manifesta através de mim.*  
 *Sou tudo, sem dúvida –*  
 *Mas através d’Ele”.*

Para ‘Iraqui o Divino se manifesta através do movimento dos seres, pois eles são atos do Divino. Este é o sentido da máxima de Maomé: “Quem conhece a si mesmo conhece ao seu Senhor”. É o Divino no homem quem ama, quem vê, quem invoca e quem consuma. Assim, a convicção do buscador é o Divino nele mesmo, e todo amor, qualquer que seja seu objeto ou imagem, “não passa de um aroma de Teu perfume: ninguém mais pode ser amado”.

O sufi considera que amar outra coisa que não o Divino não é um caso de certo ou errado, mas de uma impossibilidade. A compreensão de que o amor não só perpassa todas as coisas mas é todas as coisas é a raiz da resolução espiritual de procurar o Amado através de todos os obstáculos, testes e provações, a fonte da conduta moral e a base da significância. Não obstante, o Amado é sempre maior do que o espelho que é o amante.

“Como pode o Significado ser espremido na caixa da Forma?” Mesmo os véus luminosos ou sombrios, ditos por alguns serem 70 mil, entre o Absoluto e o ser humano, cegam e enganam somente aquele que busca a forma antes do que o significado.

*“Tu estás oculto do mundo*  
 *em Tua própria manifestação…*  
 *Oculto, manifesto,*  
 *tudo ao mesmo tempo:*  
 *Não és isto, nem aquilo –*  
 *Mas és ambas as coisas”.*

Os véus da manifestação que parecem ocultar a unidade transcendente do Divino são apenas os Nomes e Atributos Divinos através dos quais Ele age, isto é, dá origem aos seres. Eles são as potências criadoras inteligentes da manifestação.

“Marca bem: se estes véus fossem meramente atributos humanos deviam ser destruídos até virarem nada… Mas de fato isto jamais acontece; a visão jamais os destrói, tampouco eles deixam de bloquear nossa visão. Assim, estes véus não devem ser humanos, mas sim Divinos, Nomes e Atributos de Deus: luminosos como a manifestação, a benevolência e a Beleza; tenebrosos como a não-manifestação, o domínio absoluto e Majestade…

Mas a teofania da Essência age ela mesma por detrás do véu dos Atributos e Nomes… Por fim o Divino é Seu próprio véu, pois Ele se oculta pela própria intensidade de Sua manifestação e Se vela pela própria potência de Sua Luz”.

Para ‘Iraqui a aritmética provê analogias que indicam o que deve ser feito para nos dirigirmos ao Amado. Uma vez que o Divino é um só e o indivíduo deve se tornar um espelho perfeito do Divino, o indivíduo também deve se tornar um só. Geometricamente, devemos nos tornar uma esfera congruente com a esfera do Divino.

“A Realidade é uma esfera: onde quer que coloquemos nosso dedo, ali está seu centro morto”. É o círculo cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em lugar algum. “Nossas tintas e cores são apenas opinião e fantasia.

Ele é incolor e devemos adotar o Seu matiz”. Se não houvesse nenhum Sol Espiritual da Manifestação, não haveria formas sombrias, pois as sombras não podem existir na Escuridão Divina. Mas quando o Sol brilha completamente em toda parte não há sombra alguma.

Este é o paradoxo da origem e da meta da pessoa. As etapas do caminho até a meta, a dissolução do paradoxo, são marcadas pelo fato de que quanto mais se ama, mais se tem sede de amor – é como beber água salgada. Requer-se pobreza de alma, pois o mesmo vento que apaga a vela do homem rico atiça a tocha fanada do mendigo.

E se o amante consegue a união, o apagamento da linha de separação deixa uma marca, uma lembrança da suavidade do anelo do amor, e o amante desejará voltar ao mundo, agora revestido de cores divinas e despido de cores mundanas, para aperfeiçoar os que permanecem à meia-luz da ignorância.

Finalmente, o amante deve ter esperança, pois “o desespero de modo algum é obrigatório”, e esta esperança pode se expandir para uma esperança profunda e inabalável por toda a humanidade.

A união final entre amante e Amado dissolve a ambos, e só permanece a Deidade. Este é o entendimento Sufi do “Não há deus além de Deus” – não existe nada de real senão o Divino. ‘Iraqui buscou por toda sua vida realizar esta única ideia, e qualquer que tenha sido sua realização final, a cada dia ele fortalecia sua convicção ao longo do caminho que é a escada do Amor colocada entre a Terra e o Divino incompreensível.

“Quando o amante contempla a beleza do Amado em forma de espelho, nascem a dor e o prazer, manifestam-se a tristeza e a alegria, surgem juntos o medo e a esperança, a contração e a expansão se alternam.

Mas quando nos despimos das vestes da forma e mergulhamos da Unidade do Oceano Todo-abrangente, já não sabemos nada de tormentos ou de beatitude, de expectativa ou preocupação, de medo ou esperança; pois estas coisas dependem do passado e do futuro, mas agora nos afogamos em um mar onde o Tempo é abolido, onde tudo é Agora sobre Agora”.
