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Quero terminar o presente capítulo transcrevendo
e até comentando brevemente cada versículo
da Confissão Egípcia, Papiro Nebseni:
1 - Ó tu, espírito que marchas
a grandes passadas e que surges em Heliópolis,
escuta-me! Eu não cometi ações
perversas. (É claro que aquele que
fora capaz de feitos mal intencionados deixou de existir.
Somente o Ego comete tais atos. O Ser do defunto ainda
em corpo vivo nunca realizaria nada maligno.)
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2 - Ó tu, espírito que te manifestas
em Ker-ahá e cujos braços estão rodeados
de um fogo que arde! Eu não tenho agido com violência.
(Ressalta, com inteira clareza, que a violência
é dona de mil facetas. O Ego quebra leis, vulnera honras,
profana, força mentes alheias, rompe, deslustra e intimida
o próximo. O Ser sempre respeita o livre arbítrio
de nossos semelhantes; é sempre sereno e tranqüilo.)
3 - Ó tu, espírito que te manifestas
em Hermópolis e que respiras o alento divino. Meu coração
detesta a brutalidade. (O Ego, certamente grosseiro,
é torpe, incapaz, amigo da leviandade, bestial por
natureza e por instinto animal. O Ser é distinto, refinado,
sábio, capaz, divinal e docemente severo.)
4 - Ó tu, espírito que te manifestas
nas fontes do Nilo e que te alimentas sobre as sombras dos
mortos! Eu não roubei. (Ao Ego agrada
o furto, a rapina, o saque, a pilhagem, o rapto, o seqüestro,
a fraude, a estafa, tomar emprestado e não devolver,
abusar da confiança dos outros e reter o alheio, explorar
o próximo, dedicar-se ao peculato. O Ser goza dando
e até renunciando aos frutos da ação,
é serviçal, desinteressado, caritativo, filantropo
e altruísta.)
5 - Ó tu, espírito que te manifestas
em Restau e cujos membros apodrecem e engrangrenam! Eu não
matei meus semelhantes. (O assassinato é
o ato de corrupção mais hediondo existente no
mundo. Não somente apaga a vida alheia com revólveres,
gases, espadas, venenos, pedras, paus, mas também aniquila
a vida de nossos semelhantes com palavras duras, olhares violentos,
atos de ingratidão, infidelidade, traição,
gargalhadas. Muitos pais e mães de família talvez
ainda existissem se seus filhos não lhes tivessem tirado
a vida mediante más ações. Multidões
de esposas ou de esposos todavia ainda respirariam sob a luz
do sol se um dos cônjuges houvesse permitido. Recordemos
que o ser humano mata o que mais quer. Qualquer sofrimento
moral pode adoecer-nos e levar-nos ao sepulcro. Todas as enfermidades
têm origem no psiquismo.)
6 - Ó tu, espírito que te manifestas
no céu sob a dupla forma do leão. Eu não
diminuí o salamim de trigo. (O Ego altera
o peso dos víveres.)
7 - Ó tu, espírito que te manifestas
em Letópolis e cujos dois olhos ferem como punhais!
Eu não cometi fraude. (O Ser jamais cometerá
delito.)
8 - Ó tu, espírito da deslumbrante
máscara que andas lentamente para trás! Eu não
subtraí o que pertencia aos deuses. (Agrada
ao Ego saquear os sepulcros dos grandes iniciados; profanar
as sagradas tumbas; roubar as relíquias veneráveis,
saquear as múmias em suas moradas, buscar nas entranhas
da terra as coisas santas para profaná-las.)
9 - Ó tu, espírito que te manifestas
em Herakleópolis e que golpeias e torturas os ossos!
Eu não menti. (O Ego satisfaz-se com o
embuste, o engano, a falsidade, a mentira, a vaidade, o erro,
a ficção, o aparente. O Ser é diferente,
jamais mente, sempre diz a verdade, custe o que custar.)
10 - Ó tu, espírito que te manifestas
em Mênfis e quer fazer surgir e crescer as chamas. Eu
não roubei o alimento de meus semelhantes.
(Ao Ego apraz separar a comida de seus semelhantes, negociar
ilicitamente com o alimento alheio, subtrair, extrair mesmo
que seja uma parte do que não lhe pertence, levar a
fome aos povos e aos grupos de pessoas, ocultar os víveres,
encarecê-los, tirar deles absurdos lucros, roubar, negar
um pão ao faminto.)
11 - Ó tu, espírito que te manifestas
no Amenti, divindade das duas fontes do Nilo! Eu não
difamei. (Ao Ego agrada a calúnia, a impostura,
a murmuração, a maledicência, desacreditar
nos outros, denegrir, injuriar, ao passo que o Ser prefere
calar ao invés de profanar o Verbo).
12 - Ó tu, espírito que te manifestas
na região dos lagos e cujos dentes brilham como o sol!
Eu não sou agressivo. (O Ego é
por natureza provocador, cáustico, irônico, mordaz,
insultante, pulsante, aprecia o ataque, o assalto, a arremetida;
fere com o sorriso sutil de Sócrates e mata com a gargalhada
estrondosa de Aristófanes. No Ser, sempre sereno, equilibram-se
a doçura e a severidade.)
13 - Ó tu, espírito que surges junto
ao cadafalso e que, voraz, te precipitas sobre o sangue das
vítimas! Sabei: eu não matei os animais do templo.
(Os animais consagrados à divindade; porém
o Ego fere e assassina as criaturas dedicadas ao Eterno. Somente
o Ser sabe abençoar, amar e fazer todas as coisas perfeitas.)
14 - Ó tu, espírito que te manifestas
na vasta sala dos trinta juízes e que te nutres de
entranhas de pecadores! Eu não defraudei.
(Ao Ego compraz, usurpar, roubar, frustrar, alterar, desbaratar.)
15 - Ó tu, Senhor da ordem universal, que
te manifestas na Sala da Verdade-Justiça, aprende!
Eu não monopolizei os campos de cultivo. (A
terra é de quem a trabalha; o obreiro trabalha, lavra,
sua. Mas os poderosos, os usurpadores, retêm, absorvem
os terrenos cultivados. Assim é o Ego.)
16 - Ó tu, espírito que te manifestas
em Bubastis e que marchas retrocedendo, aprende! Eu não
escutei atrás das portas. (O Ego é
curioso e perverso, por natureza e por instinto. Dizem que
as sebes, muros ou paredes têm ouvidos e as portas também.
O Ego encanta-se, intrometendo-se na intimidade do próximo.
Mefistófeles ou Satã é sempre intruso,
intrometido.)
17 - Ó tu, espírito Asti, que apareces
em Heliópolis! Eu não pequei jamais pelo excesso
de palavras. (O Eu é charlatão,
conversador, falador, loquaz. O Ser fala o estritamente necessário,
jamais brinca com a palavra.)
18 - Ó tu, espírito Tatuf, que apareces
em Ati! Eu não pronunciei maldições,
quando me causaram danos. (O Ego gosta de maldizer,
denegrir, abominar, destratar. O Ser apenas sabe abençoar,
amar e perdoar.)
19 - Ó tu, espírito Uamenti, que apareces
nas covas de tortura! Eu não cometi adultério.
(O Ego é mistificador, corrompido, viciado, falso,
satisfaz-se justificando o adultério, sublimando-o,
dando-lhe de si mesmo e dos demais; adorna-o com normas legítimas
e cartas de divórcios; legaliza-o com novas cerimônias
nupciais. Aquele que cobiça a mulher alheia é,
de fato, adúltero, mesmo que jamais copule com ela.
Em verdade vos digo que o adultério nas profundezas
do subconsciente das pessoas mais castas, tem múltiplas
facetas.)
20 - Ó tu, espírito que te manifestas
no templo de Ansu e que olhas cuidadosamente as oferendas
que te levam! Sabe, não cessei jamais de ser casto.
(A castidade absoluta somente é possível
quando o Ego está bem morto. Muitos anacoretas que
alcançaram no mundo físico a pureza, a virgindade
da alma, a honestidade e a candura quando foram submetidos
às provas nos mundos supra-sensíveis fracassaram,
delinqüiram, caíram como Amfortas, o Rei do Graal,
entre os impudicos braços de Kundry, Gundrígia,
aquela loura tempestuosa que chamavam Herodias.)
21 - Ó tu, espírito que apareces em
Hehatu, chefe dos antigos Deuses! Eu nunca atemorizei as pessoas.
(O Ego gosta de horrorizar, horripilar, espantar, intimidar
os outros, ameaçar, derrubar moralmente o próximo,
prostrá-lo, abatê-lo, assustá-lo. As casas
comerciais costumam enviar lembretes, às vezes muito
finos, aos seus clientes morosos, porém sempre ameaçadores.)
22 - Ó tu, espírito destruidor que
te manifestas em Kauí! Eu jamais violei a ordem dos
tempos. (O Ego arbitrariamente muda os horários
e altera o calendário. É útil recordarmos
a autêntica ordem dos sete dias da semana: 1º dia:
Lua, domingo; 2º dia: Mercúrio, segunda-feira;
3º dia: Vênus, terça-feira; 4º dia:
Sol, quarta-feira; 5º dia: Marte, quinta-feira; 6º
dia: Júpiter, sexta-feira; 7º dia: Saturno, sábado.
Os pseudo-sábios alteraram esta ordem.)
23 - Ó tu, espírito que apareces em
Urit, e de quem escuto a voz monótona! Eu jamais me
entreguei à cólera. (O Ego está
sempre disposto a deixar-se levar pela ira, o asco, o enfado,
a irritação, a fúria, a exasperação,
o desafio.)
24 - Ó tu, espírito que apareces na
região do lago Hekat, sob a forma de um menino! Eu
jamais fui surdo às palavras da Justiça. (O
Ser ama sempre a eqüidade, o direito. É imparcial,
reto, justo. Quer a legalidade, o que é legítimo,
cultiva a virtude e a santidade; é exato nas suas coisas,
cabal, completo; deseja a precisão e a pontualidade.
Em contrapartida, o Ego trata sempre de justificar e desculpar
seus próprios delitos. Jamais é pontual, deseja
o suborno, é dado a aconselhar e corromper os tribunais
da justiça humana.)
25 - Ó tu, espírito que apareces em
Unes e cuja voz é tão penetrante! Eu jamais
promovi querelas. (O Ego aprecia a mágoa,
a discórdia, a disputa, a demanda, a briga. É
amigo de politicalhas, contendas, pleitos, litígios,
discussões. Por antítese diremos que o Ser é
diferente: ama a paz, a serenidade, é inimigo das palavras
duras; se aborrece com as alterações, as falcatruas.
Diz o que tem a dizer e logo guarda silêncio, deixando
aos seus interlocutores completa liberdade para pensarem,
aceitarem ou recusarem; depois retira-se.)
26 - Ó tu, espírito Basti, que apareces
nos Mistérios! Eu não fiz meus semelhantes derramarem
lágrimas. (O pranto dos oprimidos cai
sobre os poderosos como um raio de vingança. O Ego
promove lamentos e deploráveis situações.
O Iniciado bem morto, embora tenha vivo o seu corpo, onde
quer que passe deixa centelhas de luz e de alegria.)
27 - Ó tu, espírito cujo rosto está
na parte posterior da cabeça, e que deixas tua morada
oculta! Eu jamais pequei contra a natureza com os homens.
(Os infrassexuais de Lilith, homossexuais, pederastas,
lesbianas, afeminados, são sementes degeneradas, casos
perdidos, sujeitos que de nenhuma maneira podem se auto-realizar.
Para esses serão as trevas exteriores, onde se ouve
somente o pranto e o ranger de dentes.)
28 - Ó tu, espírito com a perna envolta
em fogo e que sais de Akhekhu! Eu jamais pequei pela impaciência.
(A intranqüilidade, o desassossego, a falta de paciência
e de serenidade são obstáculos que impedem o
trabalho esotérico e a auto-realização
íntima do Ser. O Eu é por natureza impaciente,
intranqüilo, tem sempre tendência a alterar-se,
enfadar-se, arder, enojar-se. Não sabe esperar e por
isso fracassa.)
29 - Ó tu, espírito que sais de Kenemet
e cujo nome é Kenemti! Eu jamais injuriei a qualquer
pessoa. (O iniciado bem morto, que já
dissolveu o Ego, tem somente dentro de si o Ser e este é
de natureza divina, incapaz de injuriar o próximo.
O Ser não ofende a ninguém, é perfeito
em pensamento, palavra e obra. O Ego fere, maltrata, danifica,
insulta, ultraja, agrava.)
30 - Ó tu, espírito que sais de Saís,
e que levas em tuas mãos tua oferenda. Eu não
fui querelador. (Ao Ego agradam as broncas, alvoroços,
grosserias.)
31 - Ó tu, espírito que apareces na
cidade de Djefit e cujas faces são múltiplas!
Eu não agi precipitadamente. (O Eu tem
sempre a marcada tendência a desesperar-se. É
arrebatador, inconsiderado, imprudente, temerário,
irreflexivo, deseja correr, andar depressa, não tem
precaução. O Ser é muito diferente, profundo,
reflexivo, prudente, paciente, sereno.)
32 - Ó tu, espírito que apareces em
Unth e que estás cheio de astúcia! Eu não
faltei com o respeito aos deuses. (Durante este
presente ciclo tenebroso do Kali-Yuga as pessoas zombam dos
deuses santos, Prajapatis ou Elohim bíblicos. As multidões
da futura sexta raça voltarão a venerar os inefáveis.)
33 - Ó tu, espírito adornado de chifres
e que sais de Santiú! Em meus discursos nunca usei
de palavras excessivas. (Observemos os charlatães
das diversas emissoras radiofônicas! Assim também
é o Eu; sempre palrador.)
34 - Ó tu, Nefer-Tum, que sais de Mênfis!
Eu não defraudei nem obrei com perversidade.
(A fraude tem muitos coloridos de tipo psicológico.
Sentem-se defraudadas as noivas enganadas; os maridos traídos;
os pais e mães abandonados ou feridos moralmente por
seus filhos; o trabalhador despedido injustamente de seu emprego;
o menino que não recebeu o prêmio prometido;
o grupo esotérico abandonado por seu guia. Interessa
ao Eu defraudar, perverter, corromper, infeccionar tudo quanto
toca.)
35 - Ó tu, Tum Sep, que sais de Djedu! Eu
não tenho jamais injuriado o rei. (Os
chefes de Estado são os veículos do Karma; por
isso não devemos amaldiçoá-los.)
36 - Ó tu, espírito, cujo coração
é ativo e que sais de Debti! Eu jamais poluí
as águas. (Seria o cúmulo do absurdo
que um iniciado com o Ego bem morto cometesse o crime de emporcalhar
as águas dos rios e dos lagos. Mas apraz ao Eu realizar
tais crimes, porque não sente compaixão pelas
criaturas; não quer entender que ao infectar o elemento
líquido prejudicam tudo o que tiver vida.)
37 - Ó tu, Hi, que apareces no céu!
Saiba: minhas palavras jamais foram altaneiras. (O
Ego é altivo por natureza, soberbo, orgulhoso, arrogante,
imperioso, depreciativo, desdenhoso. Ele esconde seu orgulho
sob a túnica de Arístipo – vestimenta
cheia de buracos e remendos. Dá-se até ao luxo
de falar com fingida mansietude e poses piedosas, mas através
dos buracos de sua roupa nota-se a sua vaidade.)
38 - Ó tu, que ordenas aos iniciados! Eu não
amaldiçoei os deuses. (As pessoas perversas
abominam e denigrem os deuses, anjos e devas.)
39 - Ó tu, Neheb-Nefert, que sais do lago!
Eu não fui jamais impertinente nem insolente. (A
impertinência e a insolência fundamentam-se na
falta de humildade e paciência. O Ego gosta de pisar,
magoar, é irreverente, inoportuno, disparato, grosseiro,
precipitado, torpe.)
40 - Ó tu, Nehebe-Kau, que sais da cidade.
Eu não intriguei jamais, nem me fiz valer.
(O Ego quer subir, galgar o cimo da escada, fazer-se sentir,
ser alguém na vida. O Eu é farsante, embrulhão,
enredador, maquinador, obscuro e perigoso.)
41 - Ó tu, espírito, cuja cabeça
está santificada e que logo sais de teu esconderijo!
Saiba: eu não enriqueci de modo ilícito.
(O Ego vive em função do “mais”.
O processo acumulativo do Eu é horripilante: mais dinheiro,
não importando os meios, ainda que seja estafando,
enganando, defraudando, intimando, trapaceando. Mefistófeles
é perverso, malvado, assim tem sido sempre Satã,
o Mim Mesmo.)
42 - Ó tu, espírito que sais do mundo
inferior e levas ante ti teu braço cortado. Eu jamais
desdenhei os deuses da minha cidade. (Essas divindades
inefáveis, anjos protetores das povoações,
espíritos familiares, etc, merecem nossa admiração
e respeito. Eles são os Deuses Penates dos antigos
tempos. Cada cidade, povo, metrópole ou aldeia, tem
seu reitor espiritual, seu Prajapati. Não existe família
que não tenha seu próprio regente espiritual.
O Ego despreza os pastores da alma.)
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