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Dois Evangelhos Gnósticos de João

1. Livro Apócrifo dos Atos de João
(Complemento do livro de Mateus 26: 29 a 30.)


Antes que fosse preso pelo julgamento dos judeus, o Mestre reuniu a todos nós e disse:

"Antes que eu seja entregue a eles, cantaremos um hino ao Pai e, em seguida, iremos ao encontro daquilo que nos espera.

Ele pediu que nos déssemos as mãos em roda e colocando-se no meio, disse: "Respondei-me Amém". Começou, então, a cantar um hino, que dizia: "Glória ao Pai". E nós ao redor lhe respondíamos: "Amém".

"Glória à Graça, glória ao Espírito, glória ao Santo, glória à sua glória." - Amém.

"Nós o louvamos, ó Pai, nós lhe damos graças, ó Luz em que não habitam as trevas." - Amém.

"Agora direi por que damos graças: Devo ser salvo e salvarei." - Amém.

"Devo ser liberto e libertarei." - Amém.

"Devo ser gerado e gerarei." - Amém.

"Devo ouvir e serei ouvido." - Amém.

"Devo ser lembrado e sempre lembrarei." - Amém.

"Devo ser lavado e lavarei." - Amém.

"A Graça dança em conjunto, eu devo tocar a flauta, dançai todos." - Amém.

"O reino dos anjos canta louvores conosco." - Amém

"O universo pertence àquele que participa da dança." - Amém.

"Quem participa da dança não sabe o que vai acontecer." - Amém.

"Devo ir, mas vou ficar." - Amém.

"Devo honrar e devo ser honrado." - Amém.

"Não tenho morada, mas estou em todas os lugares." - Amém.

"Não tenho templo, mas estou em todos os templos." - Amém.

"Sou um espelho para aquele que me contempla." - Amém.

"Sou uma porta para aquele que bate." - Amém.

"Sou um caminho para ti que passa." - Amém.

"Se seguires minha dança, compreendes o que falo, e guarda silêncio sobre meus mistérios."

"Tu, que participas da dança, compreende o que faço, pois a ti pertence esse sofrimento.

"Tu não poderias de maneira alguma compreender o que sofre, se Eu não tivesse sido enviado como Logos do Pai."

"Viste o que sofro, me viste sofrendo, e não ficaste insensível, mas sim profundamente perturbado."

"Tu, que pela perturbação alcançaste a sabedoria, tens em mim um leito: repousa em mim."

"Saberás quem sou quando Eu tiver partido. O que pareço ser agora, não sou. Tu verás quando vieres."

"Se soubesses como sofrer, serias capaz de não sofrer mais. Aprende a sofrer e tornar-te-ás capaz de não mais sofrer."

"O que não sabes, eu mesmo vou ensinar. Sou teu Deus. Quero andar no mesmo ritmo das almas santas. Aprende comigo a palavra da sabedoria."

"Dize-me de novo: Glória ao Pai, glória ao Logos, glória ao Espírito Santo.

"Tu queres saber o que Eu Sou? Com a palavra revelei tudo, e não fui de modo algum revelado."

"Compreende bem: Eu estarei aqui. Quando tiveres compreendido, diz: Glória ao Pai!" - Amém.

Depois do Canto dos Salmos, saíram para o Monte das Oliveiras.


Revelação do Mistério da Cruz dos Atos de João

Depois que o Senhor dançou conosco, o meu amado, Ele foi embora.

E nós ficamos como homens supresos e entorpecidos, e partimos para aqui e acolá.

E assim eu o vi sofrer, e não esperei por seu sofrimento, mas parti para o Monte das Oliveiras e chorei sobre o que veio a se passar. E quando Ele estava pendurado sobre a cruz na Sexta-Feira, na sexta hora do dia, veio uma escuridão sobre toda a Terra.

E meu Senhor ficou no meio da caverna, iluminando-a, e disse:

"João, para o povo lá embaixo em Jerusalém,

Eu estou sendo crucificado e perspassado com lanças e espinhos,

e estão me dando vinagre e bílis para beber.

Mas para você Eu estou falando, escutai o que eu digo.

Eu coloquei em tua mente para vires a esta montanha

para que possas ouvir o que um discípulo

deve aprender de seu mestre e homem de Deus."

E quando ele disse isso, mostrou-me uma Cruz de Luz firmemente fixa,

e em volta da cruz uma grande multidão, que não tinha nenhuma forma definida,

e na cruz estava outra forma, com a mesma aparência.

E eu vi o Senhor, ele mesmo, sobre a cruz, sem nenhuma forma,

mas apenas um tipo de Voz; não aquela Voz que conhecíamos,

mas uma que era doce e gentil e verdadeiramente a Voz de Deus, que me disse:

"João, deve haver um homem para ouvir estas coisas de mim:

pois eu preciso de um que esteja pronto para ouvir.

Esta Cruz de Luz é algumas vezes chamada de Logos por mim,

para vossos propósitos, algumas vezes Mente, algumas vezes Jesus.

Algumas vezes Cristo, algumas vezes uma porta, algumas vezes um caminho,

algumas vezes pão, algumas vezes semente, algumas vezes ressureição,

algumas vezes Filho, algumas vezes Pai, algumas vezes Espírito, algumas vezes Vida,

algumas vezes Pistis, algumas vezes Charis;

e assim é chamada para propósitos do homem."

"Mas o que é verdadeiramente,

como conhecida em si mesma e dito por nós, é que:

É a distinção de todas as coisas;

e a forte elevação do que está firmemente fixo, fora do que é instável,

e a harmonia da Sabedoria, sendo Sabedoria em harmonia.

Mas há lugares à direita e à esquerda,

Poderes, Autoridades, Principalidades e demônios,

ameaças, paixões, diabos, Satã, e a raiz inferior

de onde a natureza das coisas transientes provém."

"Esta cruz então é aquela que unificou todas as coisas pela palavra e

que as separou do que é transitório e inferior,

e que também compactou coisas dentro de mim.

Mas esta não é aquela cruz de madeira que você deverá ver quando descer daqui;

nem eu sou o homem que está sobre aquela cruz.

Eu, quem agora você não vê, mas apenas ouve a minha voz.

Eu fui tomado para ser aquilo o que eu não sou,

Eu, que não sou o que para muitos eu fui;

mas o que eles irão dizer de mim é penoso e indigno de mim.

Desde então o lugar de meu repouso não deve ser nem visto nem revelado.

Muito mais deverei eu, o Senhor deste lugar, ser nem visto nem revelado."

"A multidão ao redor da cruz, que não é de uma forma, é a natureza inferior.

E aqueles que tu viste na cruz, mesmo que eles ainda não tenham uma forma -

nem todos os membros daquele que desceu foram ainda reunidos.

Mas quando a natureza humana é tomada,

e a raça que vem a mim e obedecea minha voz,

então aquele que agora me ouve,

deverá unir-se a esta raça e não será mais o que ele é agora,

mas estará acima deles, como eu estou agora.

Por tanto tempo enquanto não te chamaste meu,

eu não sou o que sou, mas se me ouvis,

tu também como um ouvinte deverás ser o que eu era,

quando fores como eu sou comigo mesmo,

pois de mim tu és o que eu sou.

Portanto, ignore os muitos e despreze aqueles que estão fora do Mistério;

pois deves saber que eu sou totalmente com meu Pai, e o Pai comigo."

"Assim eu não sofri nada daquelas coisas das quais irão dizer de mim;

mesmo o sofrimento que eu mostrei a ti e ao resto em minha dança,

eu desejo que isto seja chamado de Mistério.

Pois o que tu és, que eu mostrei a ti, como tu vês;

mas o que Eu Sou, é apenas conhecido por mim mesmo, e niguém mais.

Deixa-me ter o que é meu;

o que é teu deves ver através de mim;

mas a mim deves ver não verdadeiramente o que Eu Sou, como eu disse,

mas aquilo que tu, meu parente, és capaz de saber.

Tu ouviste que eu sofri, e eu não sofri,

e aquilo que eu não sofri, ainda assim eu sofri,

e que eu fui transpassado, ainda assim eu não fui ferido,

que eu fui pendurado, ainda assim eu não fui pendurado,

que o sangue fluiu de mim, ainda assim ele não fluiu,

e, numa palavra,

aquilo que eles dizem de mim, eu não confirmo,

mas aquilo que eles não dizem,

estas coisas, eu sofri.

Agora, que coisas são estas, que eu secretamente mostro a ti;

pois eu sei que tu irás entender.

Tu deves conhecer a mim, então, como um tormento do Logos,

o sangue do Logos, as feridas do Logos, o jejum do logos, a morte do Logos.

E assim eu digo, descartando minha humanidade.

O primeiro, então, que deves conhecer é o Logos, depois deves

conhecer o Senhor, e em terceiro lugar o Homem, e o que ele sofreu."

Quando Ele disse essas coisas para mim, e outros a quem eu não sei como dizer, como Ele desejava, Ele foi tomado, sem que ninguém da multidão o visse. E descendo, eu ri deles todos, pois Ele havia me dito o que eles diziam dEle; e eu guardei esta única coisa em minha mente, que o Senhor realizou tudo como um símbolo (sinal)

e uma liberação para a conversão e salvação do homem.

2. Evangelho da Paz pelo Discípulo João

Vossa Mãe está em vós e vós estais Nela. É Ela que vos gerou e que vos deu a vida. É a Ela que sois devedores de vosso corpo, e é a Ela que deveis voltar algum dia. Bem-aventurados sois vós que, um dia, a conhecereis, e a seu reino, quando receberdes os anjos de vossa Mãe e quando vos adaptardes às suas leis. Eu vos digo, em verdade, que aquele que chegar a isto não verá jamais a doença, porque o poder de vossa Mãe domina tudo. (...) e a lei de vossa Mãe rege todo vosso corpo como de todos os seres vivos.

O sangue que flui em vossas veias procede de vossa Mãe, a Terra. Seu sangue cai das nuvens, jorra do seio da terra, murmura nos riachos das montanhas, corre fartamente nos rios das planícies, dorme no seio dos lagos e enfurece-se, poderoso nos mares tempestuosos.

O ar que nós respiramos nasce da respiração da nossa Mãe, a Terra. Seu sopro é azulado nas alturas do céu, murmura nos cumes das montanhas, sussurra através da folha das florestas, se eleva como uma onda acima dos campos de trigo, dorme nos vales profundos, queima tórrido no deserto.
A dureza de nosso ossos provém de nossa Mãe, a Terra, dos rochedos e das pedras. Seus elementos estão a nú, face ao céu, no cume das montanhas, são como os gigantes que dormem nos flancos das encostas, como ídolos situados no deserto, e estão igualmente escondidos nos mais profundo do seio da terra.

A maciez da nossa carne nasceu da carne de nossa Mãe, a Terra. Esta carne amarela e vermelha, fornece a substância das frutas de nossas árvores; Ela nos dá assim o alimento que jorra dos silos dos campos.

Nossas vísceras são formadas das entranhas de nossa Mãe, a Terra, e estão escondidas de nossos olhos assim como as profundezas invisíveis da terra.

A luz de nossos olhos, o poder de ouvir de nossas orelhas, nascem de cores e de sons de nossa Mãe, a Terra, porque nos envolvem inteiramente, assim como fazem as vagas do mar para o peixe ou os turbilhões do ar para o pássaro.

Eu vos digo, em verdade, o Homem é Filho da Mãe, a Terra, e é Dela que o filho do Homem recebeu a totalidade de seu corpo, da mesma maneira que o corpo do recém nascido procede do seio de sua Mãe. Eu vos digo, em verdade, vós sois um com sua Mãe, a Terra; Ela está em vós e vós Nela. É Dela que nascestes, Nela viveis e a Ela deveis enfim retornar. (...)

Não procurei a Lei nas vossas Escituras porque a lei é vida enquanto que a escritura está morta. Eu vos digo, em verdade, Moisés não recebeu de Deus suas leis por escritura, mas pela palavra vivente. A Lei é uma palavra viva, proferida por um Deus vivo, transmitida a profetas vivos a homens vivos. Em toda a coisa que se encontra vida se encontra escrita a Lei. Vós a encontrareis na relva, na árvore, no riacho, na montanha, nos pássaros do céu, nos peixes dos lagos e dos mares, mas procurai-a sobretudo em vós mesmos.

Porque eu vos digo, em verdade, todas as coisas que são dotadas de vida são mais próximas de Deus que as escrituras que são privadas de vida. Deus assim fez a vida e todas as coisas viventes de maneira que elas sejam a palavra de vida eterna e que elas ensinem ao homem as leis do verdadeiro Deus. Deus não escreveu suas leis nas páginas dos livros, mas em vosso coração e em vosso espírito. Elas estão em vosso corpo, no vosso sangue, nos vossos ossos, na vossa carne, nas vossa entranhas, nos vossos olhos, nas vossas orelhas e em cada uma das parte das mais ínfimas de vosso corpo.

Elas estão presentes no ar, na água, na terra, nas plantas, nos raios do sol, nas profundezas e nas alturas. Todas as coisas vos falam para que possais a palavra e a vontade do Deus vivente.”

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