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Introdução ao Pensamento Gnóstico - Gnose / Gnosis

Conceito de Gnose
Fontes do Gnosticismo Antigo
Características Gerais da Antiga Gnose
Os Princípios Fundamentais da Teologia Gnóstica
Controvérsias entre os Gnósticos e a Igreja Católica
Conseqüências para a Cultura Ocidental
Conceitos de Gnose Contemporânea

Características Gerais da Antiga Gnose

Quando o cristianismo chegou, foi aceito sem reservas, com fé total. Mas, ao acolher a nova doutrina as pessoas não abandonaram suas antigas crenças e mesclaram a doutrina que chegava aos antigos rituais. Desta maneira, ao invés das pessoas se converterem à nova religião, o que ocorreu na prática foi o cristianismo converter-se à antiga religião. As palavras do Evangelho misturaram-se aos antigos rituais.

Nos séculos 1º e 2º d.C., as novas idéias, surgidas desta fusão do cristianismo com antigas religiões, expandiram-se por todo o Oriente Médio e pela Grécia, até a Gália. E em cada região que se fixavam iam se amalgamando aos costumes locais, fazendo surgir novas correntes marcadas pelos principais mestres e pelos locais onde chegavam.

Das diversas ramificações destacam-se:

  • os docetas, que tinham como representantes principais Dociteu e Saturnino. Davam maior importância à realidade do Jesus Cristo Interior, que existe e é dentro de cada um de nós, e por isso aceitavam o Nascimento, Paixão e Ressurreição dessa Potência Crística profunda.
  • os ebionitas, liderados por Ebion, acreditavam que Jesus havia nascido de forma natural de José e Maria e só depois, pelos mistérios Iniciáticos, conseguiu a encarnação do Cristo Cósmico, no momento do Batismo;
  • os ofitas, para eles a serpente representava o princípio espiritual e acreditavam ter sido a serpente a primeira a se rebelar contra o Demiurgo e a propor a liberação do homem através da gnose, a serpente era considerada boa, era o princípio da gnose; eis aí o mistério da manifestação dualística da famosa serpente Kundalini dos orientais, que tanto pode fazer o homem ascender aos céus do Pleroma quanto se converter na terrível "cauda de Satã", se mal canalizada;
  • os barbelognósticos (palavra que significa barba-eló, "o Deus em quatro", ou Tetragrammaton) afirmavam que o pensamento da divindade contém em si a própria explicação: pensamento, pré-conhecimento, incorruptibilidade e vida eternas; que todos os Cosmos derivam do Protocosmos, que o Todo vem do Uno. Eles eram profundos conhecedores das Leis dos Sete Cosmos;
  • os marcionistas, que precederam o maniqueísmo, liderados pelo padre cristão Marcião, contrapôs o Antigo Testamento ao novo Testamento, como o faria também Lutero (este porém de forma degenerada), mais tarde;
  • o maniqueísmo, fundado por Manes, no século 3º d.C., baseava-se no dualismo, e o Supremo era rodeado por inúmeros Eons. Lúcifer era o agente da disputa que ocorria tanto nos planos superiores quanto nos planos inferiores. Dessa disputa surge o mundo visível. A redenção se daria na volta dos elementos luminosos presos no Cosmos à sua origem também com o auxílio de Lúcifer (eis aí a origem da frase alquimista: "Roubar o Fogo do Diabo");

· os sethianos;
· os sethianos ofitas;
· os luciferianos (ou luciferinos) ;
· os iscariotes; etc.

As idéias principais são:

A Divindade Suprema - Todos os sistemas gnósticos partem do pressuposto da existência de Deus. Deus está no "princípio e na origem de tudo. Ele não necessita de nada, mas isto não impede que ele esteja acompanhado de um "ser que é como que a outra cara de si mesmo", o seu cônjuge, sua Consciência, seu Pensamento, sua Paz, seu Silêncio, etc. É Aelohim gerando Elohim, ou seja, Deus-Imanifestado sendo a Origem (Origo) do Demiurgo, dos Deuses Criadores. Pode ser interpretado como a derivação em duas formas divinas, o Pai e a Mãe Cósmicos.

Em alguns sistemas aparece como o Eon Sabedoria ou Pneuma (vocábulo feminino, em hebraico), também chamada Ruah, (palavra hebraica feminina), que significa Espírito, e desempenha um papel importante na geração do Cosmos. Sofia, ou Sabedoria, criou o visível com a ajuda dos quatro elementos.

Assim aparece uma Trindade nos sistemas gnósticos.

· Pleroma - O Deus Uno, em determinado momento, através de emanação, projeção ou geração, projeta-se no exterior, desdobrando-se, "gerando" uma série de entidades divinas, os Eons, ou Sefirotes da Cabala.

· Os Eons são, portanto, entidades divinas procedentes do Uno, e são o inteligível ou o perceptível do Uno. Essas emanações, ou gerações intradivinas, originadas do Uno-Transcendente, constituem o Pleroma, ou Plenitude da Divindade.

Na formação do Pleroma há que se distinguir dois momentos: em um primeiro estágio é formada a substância ou ser dos Eons, em um segundo momento é formada a gnose ou conhecimento.

O Transcendente dá a esses Eons, formados substancialmente, o conhecimento de si mesmos só num momento posterior. É quando passam a ser divinos. Esta duplicidade de momentos mostra que a gnose é pura graça, e que só a gnose outorga a um ser, por mais divino que seja, a sua plenitude substancial.

A queda pleromática - Dentro do Pleroma acontece uma falha. Esta "falha" irá explicar o nascimento do cosmos e a origem do mal.

Entre os dois momentos do Pleroma, quando ocorre a formação dos Eons, segundo a substância e segundo o conhecimento, ocorre esta falha. Um dos entes divinos, a Sabedoria (ou Sofia), quer chegar ao conhecimento do Uno antes do tempo. Isto seria um desejo correto, justo se acontecesse no momento certo, de acordo com a vontade do Transcendente, mas, como acontece antes da hora, passa a ser uma paixão.

Porém esta paixão, este desejo prematuro pelo conhecimento pleno do Uno, continua sendo efetivo, apesar de imperfeito, pois é o desejo de uma entidade divina. Ainda assim esta paixão provoca a queda do Eon e por isto este Eon será expulso do Pleroma.

Este lapso de tempo em que o Eon Sabedoria fica fora do Pleroma tem uma dupla dimensão conceitual: teológica e cosmológica.

Teologicamente representa o nascimento do pecado, da deficiência, do Mal, que exigirá a necessidade de um Salvador. Com o Salvador se inicia, dentro do Pleroma, um processo de salvação, que mais tarde se repetirá neste mundo. Cosmologicamente, este "pecado" do Eon Sabedoria significará o princípio da matéria, do universo todo. É da paixão deste Eon que surgirá a substância informe e espessa da qual irá brotar todo o universo material.

O Eon caído se arrepende de seu pecado e para que o Pleroma não fique incompleto, para que a Totalidade divina não seja abalada por isto, o Uno, através do Salvador, resgata o Eão Sabedoria. Separa-o da substância informe e espessa que resultou da sua paixão e que deu origem ao universo e o faz retornar ao Pleroma (tudo isto está descrito na Bíblia gnóstica Pistis Sofia).

Desta forma, tem origem um duplo Eon pecador: a) um superior que se arrependeu e que volta ao Pleroma e passa a ser denominado Sabedoria Superior; b) outro que permanece fora do Pleroma, filho da Sabedoria Superior, e passa a ser denominado Achamot ou Echamot.

A Sabedoria também ficará dividida em duas partes: a superior, redimida, reintegrada ao Pleroma; e a inferior, que ficará fora do Pleroma e impedida pelo Limite de retornar. Será o agente divino no exterior e posteriormente, vai dar origem a matéria.

O Transcendente então gera mais um Eon, denominado "Limite", que tem a função de separar. Separa os Eons do nível superior e do nível inferior, o universo material. O "Limite" entre o Pleroma e o universo, que será o modelo da cruz redentora no gnosticismo cristão, que redimirá o homem e separará os não-gnósticos, que serão condenados.

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