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RESUMO
Jerônimo
e Epifânio citam o Evangelho de Bartolomeu, onde se
registra a conversa de Bartolomeu e Cristo com Belial, começando
após a Ressurreição. Adão, o Diabo,
o Inferno, Enoch e Elias são mencionados ao longo da
narrativa, além de Maria comentar com os apóstolos
detalhes da Concepção. Bastante significativo
também é o trecho onde Belial comenta sua Queda.
EVANGELHO DE BARTOLOMEU
I
Depois
que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou de entre os mortos,
acercou-se dele Bartolomeu e abordou-o desta maneira:
- Desvela-nos, Senhor, os mistérios dos céus.
Jesus respondeu-lhe:
- Se não me despojar deste corpo carnal não
os poderei desvelar.
Bartolomeu, pois, acercando-se do Senhor, disse-lhe:
-Tenho algo a dizer-lhe, Senhor.
Jesus, por sua vez, respondeu:
- Já sei o que me vais dizer. Dize-me, pois, o que
quiseres. Pergunta e eu te darei a razão.
Bartolomeu, então, falou:
- Quando ias no caminho da cruz, eu te segui de longe. E te
vi a ti, dependurado no lenho, e os anjos que, descendo dos
céus, te adoraram. Ao sobrevirem as trevas e eu estava
a tudo contemplando. Eu vi como desapareceste da cruz e só
pude ouvir os lamentos e o ranger de dentes que se produziram
subitamente das entranhas da terra. Dize-me, Senhor, onde
foste depois da cruz.
Jesus, então, respondeu desta forma:
- Feliz de ti, Bartolomeu, meu amado, porque te foi dado contemplar
este mistério. Agora podes perguntar-me qualquer coisa
que a ti ocorra, porque tudo dar-te-ei eu a conhecer. Quando
desapareci da cruz, desci aos Infernos para dali tirar Adão
e a todos que com ele se encontravam, cedendo às suplicas
do arcanjo Gabriel.
Então disse Bartolomeu:
- E o que significa aquela voz que se ouviu?
Responde-lhe Jesus:
- Era a voz do Tártaro que dizia a Belial: a meu modo
de ver, Deus se fez presente aqui. Quando desci, pois, com
meus anjos ao Inferno para romper os ferrolhos e as portas
de bronze, dizia ele ao Diabo: parece-me que é como
se Deus tivesse vindo à terra. E os anjos dirigiram
seus clamores às potestades, dizendo: levantai, ó
príncipes, as portas e fazei correr as cortinas eternas,
porque o Reino da Glória vai descer à terra.
E o Inferno disse: quem é esse Rei da Glória
que vem do céu a nós? Mas quando já havia
descido quinhentos passos, o Inferno encheu-se de turbação
e disse: parece-me que é Deus que baixa à terra,
pois ouço a voz do Altíssimo e não o
posso agüentar. E o Diabo respondeu: não percas
o ânimo, Inferno; recobra teu vigor, que Deus não
desce à terra. Quando voltei a baixar outros quinhentos
passos, os anjos e potestades exclamaram: alçai as
portas ao vosso Reino e elevai as cortinas eternas, pois es
que está para entrar o Rei da Glória. Disse
de novo o Inferno: ai de mim! Já sinto o sopro de Deus.
E disse o Diabo ao Inferno: para que me assustas, Inferno?
Se somente é um profeta que tem algo semelhante com
Deus ... Apanhemo-lo e levemo-lo à presença
desses que crêem que está subindo ao céu.
Mas replicou o Inferno: e quem é entre os profetas?
Informa-me. É, por acaso, Enoch, o escritor mui verdadeiro?
Mas Deus não lhe permite baixar à terra antes
de seis mil anos. Acaso te referes a Elias, o vingador? Mas
este não poderá descer até o final do
mundo. Que farei? Para nossa perdição, é
chegado o fim de tudo, pois aqui tenho escrito em minha mão
o número dos anos. Belial disse ao Tártaro:
não te perturbes. Assegura bem teus poderes e reforça
os ferrolhos. Acredita-me, Deus não baixa à
terra. Responde o Inferno: não posso ouvir tuas belas
palavras. Sinto que se me arrebenta o ventre e minhas entranhas
enchem-se de aflição. Outra coisa não
pode ser: Deus apresentou-se aqui. Ai de mim! Aonde irei esconder-me
de seu rosto, da sua força do grande Rei? Deixa-me
que me esconda em tuas entranhas, pois fui criado antes de
ti. Naquele preciso momento, entrei. Eu o flagelei e o atei
com correntes que não se rompem. Depois fiz sair a
todos os Patriarcas e voltei novamente para a cruz.
- Dize-me, Senhor - disse-lhe Bartolomeu. - Quem era aquele
homem de talhe gigantesco a quem os anjos levavam em suas
mãos?
Jesus respondeu:
- Aquele era Adão, o primeiro homem que foi criado,
a quem fiz descer do céu à terra. E eu lhe disse:
por ti e por teus descendentes fui pregado na cruz. Ele, ao
ouvir isso, deu um suspiro e disse: assim, rendo-me a ti,
Senhor.
De novo disse Bartolomeu:
- Vi também os anjos que subiam diante de Adão
e que entoavam hinos, mas um destes, o mais esbelto de todos,
não queria subir. Tinha em suas mãos uma espada
de fogo e fazia sinais somente a ti. Os demais rogavam que
ele subisse ao céu, mas ele não queria. Quando,
porém, tu o mandaste subir, vi uma chama que saia de
suas mãos e que chegava à cidade de Jerusalém.
Disse Jesus:
- Era um dos anjos encarregados de vingar o trono de Deus.
E estava suplicando a mim. A chama que viste sair de suas
mãos feriu o edifício da sinagoga dos judeus
para dar testemunho de mim, por terem eles me sacrificado.
Quando falou isso, disse aos apóstolos:
- Esperai-me neste lugar, porque hoje se oferece um sacrifício
no paraíso e ali hei de estar para recebê-los.
Falou Bartolomeu:
- Qual é o sacrifício que se oferece hoje no
paraíso?
Jesus respondeu:
- As almas dos justos, que saíram do corpo, vão
entrar hoje no Éden e, se eu não estiver lá
presente, não poderão entrar.
Bartolomeu continuou:
- Quantas almas saem diariamente deste mundo?
Disse-lhe Jesus:
- Trinta mil.-
Insistiu Bartolomeu:
- Senhor, quando te encontravas entre nós ensinando-nos
tua palavra, recebia sacrifícios no paraíso?
- Respondeu-lhe Jesus:
- Em verdade te digo eu, meu amado, que, quando me encontrava
entre vós ensinando-vos a palavra, estava simultaneamente
sentado junto de meu Pai.
Disse-lhe Bartolomeu:
- Quantas almas nascem diariamente no mundo?
Responde-lhe Jesus:
- Uma só a mais do que as que saem do mundo.
Dizendo isto, deu-lhes a paz e desapareceu no meio deles.
II
1. Estavam os apóstolos em um lugar chamado Chiltura,
com Maria, a Mãe de Jesus Cristo. Bartolomeu, acercando-se
de Pedro, André e João, disse-lhes:
- Por que não pedimos à cheia de graça
que nos diga como concebeu ao Senhor e como pôde carregar
em seu seio e dar à luz o que não pôde
ser gestado?
Eles vacilaram em perguntar-lhe.
Disse Bartolomeu a Pedro:
- Tu, como corifeu e nosso mestre que és, acerca-te
e pergunta-lhe.
Mas, ao ver todos vacilantes e em desacordo, Bartolomeu acercou-se
dela e disse:
- Deus te salve, Tabernáculo do Altísimo; aqui
viemos todos os apóstolos a perguntar-te como concebeste
ao que é incompreensível, e como carregaste
em teu seio aquele que não pôde ser gestado,
ou como, enfim, deste à luz tanta grandeza.
Maria respondeu:
- Não me interrogueis acerca deste mistério.
Se começar a falar-vos dele, sairá fogo de minha
boca e consumirá toda a terra.
Eles insistiram e Maria, não querendo dar-lhes ouvidos,
disse:
- Oremos.-
Os apóstolos puseram-se de pé atrás de
Maria. Esta disse a Pedro:
- E tu, Pedro, que és chefe e grande pilar, estás
de pé atrás de nós? Pois não disse
o Senhor que a cabeça do varão é Cristo
e a da mulher é o varão?'
Eles replicaram:
- O Senhor plantou sua tenda em ti e em tua pessoa houve por
bem ser contido. Tu deves ser nossa guia na oração.
Maria, então, disse-lhes:
- Vós sois estrelas brilhantes do céu. Vós
sois os que devem orar.
Disseram eles:
- Tu deves orar, pois que sois a Mãe do Rei Celestial.
Maria colocou-se diante deles e elevando as mãos aos
céus começou a dizer:
- Ó Deus, tu que és o Grande, o Sapientíssimo,
o Rei dos séculos, inexplicável, inefável,
aquele que com uma palavra deu consistência às
magnitudes siderais, aquele que fundamentou em afinada harmonia
a excelsitude do firmamento, aquele que separou a obscuridade
tenebrosa da luz, aquele que alicerçou em um mesmo
lugar os mananciais das águas; tu que deste base à
terra, tu que não podendo ser contido nos sete céus,
te dignaste a ser contido em mim sem dor alguma, sendo Verbo
Perfeito do Pai, por quem todas as coisas foram feitas; da
glória, Senhor, a teu magnífico nome, manda-me
falar na presença de teus santos apóstolos.
Terminada a oração, disse:
- Sentemo-nos no chão e vem tu, Pedro, que és
o chefe. Senta-te à minha direita e apoia com tua esquerda
meu braço. Tu, André faz o mesmo do lado esquerdo.
Tu, João, que és virgem, segura meu peito. E
tu, Bartolomeu, põe-te de joelhos atrás de mim
e apóia minhas costas para que, ao começar falar,
meus ossos não se desarticulem.
Quando fizeram isso, começou ela a falar:
- Estando eu no templo de Deus, aonde recebia alimento das
mãos de um anjo, apareceu-me certo dia uma figura que
me pareceu ser angélica. Mas seu semblante era indescritível,
e não levava nas mãos nem o pão nem o
cálice, como o anjo que anteriormente tinha vindo a
mim. Eis que de repente, rasgou-se o véu do templo
e sobreveio um grande terremoto. Joguei-me por terra, não
podendo suportar o semblante do anjo, mas ele estendeu-me
sua mão e levantou-me. Olhei para o céu e vi
uma nuvem de orvalho que aspergiu-me da cabeça aos
pés. Então ele enxugou-me com o seu manto e
disse-me: salve, cheia de graça, cálice da eleita.
Deu, então, um golpe com sua mão direita e apareceu
um pão muito grande, que colocou sobre o altar do templo.
Comeu em primeiro lugar e em seguida deu-o a mim também.
Deu outro golpe com a ourela esquerda de sua túnica
e apareceu um cálice muito grande e cheio de vinho.
Bebeu em primeiro lugar e em seguida deu-o a mim também.
E meus olhos viram um cálice transbordante e um pão.
Disse-me, então: ao cabo de três anos, eu te
dirigirei novamente minha palavra e conceberás um filho
pelo qual será salva toda a criação.
Tu és o cálice do mundo. A paz esteja contigo,
minha amada, e minha paz te acompanhará sempre. Após
isto, desapareceu de minha presença, ficando o templo
como estava anteriormente.
Ao terminar de falar, começou a sair fogo de sua boca.
Quando o mundo estava para ser destruído, apareceu
o Senhor que disse a Maria:
- Não desveles este mistério, porque se o fizerdes
no dia de hoje sofrerá a criação inteira
um cataclismo.
Os apóstolos, consternados, temeram que o Senhor pudesse
irar-se contra eles.
III
O Senhor caminhou com eles até o Monte Moria e se sentou
no meio deles. Como tinham medo, hesitavam em perguntar-lhe.
Jesus incitou-os:
- Perguntai-me o que quiserdes, pois dentro de sete dias partirei
para o meu Pai e já não estarei visível
a vós nesta forma.
Eles, vacilantes, disseram:
- Permite-nos ver o abismo, como nos prometeste.
Respondeu Jesus:
- Melhor seria para vós não verdes o abismo;
mas, se o queres, segui-me e o vereis.
Ele os conduziu ao local chamado Cherudik, cujo significado
é lugar de verdade, e fez um sinal aos anjos do Ocidente.
A terra abriu-se como um livro e o abismo apareceu. Ao vê-lo,
os apóstolos prostraram-se em terra, mas o Senhor os
ergueu dizendo:
- Não vos dizia, há pouco, que não vos
faria bem verdes o abismo?'
Jesus tomou-os de novo e pôs-se a caminho do monte das
Oliveiras. Pedro disse a Maria:
- Oh tu, cheia de graça, roga ao senhor que nos revele
os arcanjos celestiais.
Maria respondeu a Pedro:
- Oh tu, pedra escolhida por acaso não prometeu ele
fundar sua Igreja sobre ti?
Pedro insistiu:
- A ti, que és um amplo tabernáculo, cabe perguntar.
Disse Maria:
- Tu és a imagem de Adão e este não foi
formado da mesma maneira que Eva. Observa o sol e vê
que, tal qual Adão, ele se avantaja em brilho aos demais
astros. Observa também a lua e vê como está
enodoada pela transgressão de Eva. Porque pôs
Adão ao oriente e Eva ao Ocidente, ordenando a ambos
que ofereçam a face mutuamente.
Quando chegaram ao cimo do monte o Senhor afastou-se um pouco
deles, e Pedro disse a Maria:
- Tu és aquela que desfez a infração
de Eva, transformando-a de vergonha em regozijo.
Quando Jesus retornou, disse-lhe Bartolomeu:
- Senhor, mostra-nos o inimigo dos homens para que vejamos
quem é e quais são suas obras, já que
nem mesmo de ti se apiedou, fazendo-te pender do patíbulo.
Jesus, fixando nele seu olhar, disse-lhe:
- Teu coração é duro. Não te é
dado ver isso que pedes.
Então, Bartolomeu, todo agitado, caiu aos pés
de Jesus, dizendo:
- Jesus Cristo, chama inextinguível, criador da luz
eterna, tu que hás dado a graça universal a
todos os que te amam e que nos hás outorgado por meio
da Virgem Maria o fulgor perene da tua presença neste
mundo, concede-nos o nosso desejo.
Quando Bartolomeu acaba de falar, o Senhor ergueu-se dizendo:
- Vejo que é teu desejo ver o adversário dos
homens. Mas lembra-te que, ao fitá-lo, não apenas
tu mas também os demais apóstolos e Maria caireis
por terra e ficareis como mortos.
Mas todos lhe disseram:
- Senhor, vejamo-lo.
Então fê-los descer do monte das Oliveiras. E,
havendo lançado um olhar enfurecido aos anjos que custodiavam
o Tártaro, ordenou a Micael que fizesse soar a trombeta
fortemente. Quando este o fez, Belial subiu aprisionado por
6 064 anjos e atado com correntes de fogo.
O dragão tinha de altura mil e seiscentos côvados
e de largura, quarenta. Seu rosto era como uma centelha e
seus olhos, tenebrosos. Do seu nariz saía uma fumaça
mal-cheirosa e sua boca era como a face de um precipício.
Ao vê-lo, os apóstolos caíram por terra
sobre os rostos e ficaram como que mortos. Jesus acercou-se
deles, ergueu-os e infundiu-lhes ânimo.
Disse a Bartolomeu:
- Pisa com teu próprio pé sua cerviz e pergunta-lhe
quais foram suas obras até agora e como engana os homens.
Jesus estava de pé com os demais apóstolos.
Bartolomeu, temeroso, ergueu a voz e disse:
- Bendito seja desde agora e para sempre o nome de teu reino
imortal.
Quando ele acabou de dizer isso, Jesus o exortou de novo:
- Anda, pisa a cerviz de Belial.
Bartolomeu caminhou apressadamente para Belial e pisou-lhe
o pescoço, deixando-o a tremer.
Bartolomeu fugiu assustado, dizendo:
- Deixa-me pegar a borda de tuas vestes para que me atreva
a aproximar-me dele.
Jesus respondeu-lhe:
- Não podes tocar a fímbria das minhas vestes
porque não são as mesma que eu tinha antes de
ser crucificado.
Disse-lhe Bartolomeu:
- Tenho medo, Senhor, de que, assim como não se compadeceu
dos anjos, da mesma maneira me esmague também a mim.
Respondeu Jesus:
- Mas por acaso não se acertaram todas as coisas graças
à minha palavra e à inteligência de meu
Pai? A Salomão se submeteram os espíritos. Vai
tu, pois, em meu nome, e pergunta-lhe o que quiseres.
Ao fazer Bartolomeu o sinal da cruz e orar a Jesus, irrompeu
um incêndio e as vestes do apóstolo foram tomadas
pelas chamas.
Disse-lhe então Jesus de novo:
- Pisa, como te disse, na cerviz, de maneira que possas perguntar-lhe
qual é o seu poder.
Bartolomeu, pois, se foi e pisou-lhe a cerviz, que trazia
oculta até as orelhas, dizendo-lhe:
- Dizei-me quem és tu e qual é teu nome.
Bartolomeu, afrouxou-lhe um pouco as ligaduras e lhe disse:
- Conta tudo quanto tens feito.
Respondeu Belial:
- A princípio me chamava Satanail, que quer dizer mensageiro
de Deus, Mas, desde que não reconheci a imagem de Deus,
meu nome foi mudado para Satanás, que quer dizer anjo
guardião do tártaro.
Bartolomeu falou de novo:
- Conta tudo sem nada ocultar.
Ele respondeu:
- Juro-te pela glória de Deus que, ainda que quisesse
ocultá-lo, ser-me-ia impossível. Está
aqui presente aquele que me acusa. E se me fosse possível
vos faria desaparecer a todos da mesma maneira que o fiz com
aquele que pregou para vós. Também fui chamado
primeiro anjo porque, quando Deus fez o céu e a terra,
apanhou um punhado de fogo e formou-me a mim primeiro e o
segundo foi Micael, e o terceiro Gabriel, e o quarto Rafael,
e o quinto Uriel, o sexto Xathsnael e assim outros seis mil
anjos, cujos nomes me é impossível pronunciar,
pois são os lictores de Deus e me flagelam sete vezes
a cada dia e sete vezes a cada noite. Não me deixam
um momento e são os encarregados de minar minhas forças.
Os anjos vingadores são estes que estão diante
do trono de Deus. Eles foram criados primeiro. Depois destes
foi criada a multidão dos anjos: no primeiro céu
há cem miríades; no segundo, cem miríades;
no terceiro, cem miríades; no quarto, cem miríades;
no quinto, cem miríades, no sexto, cem miríades;
no sétimo, cem miríades. Fora do âmbito
dos sete céus está o primeiro firmamento, onde
residem as potestades que exercem sua atividade sobre o homem.
Há também outros quatro anjos: Um é Bóreas,
cujo nome é Vroil Cherum, tem na mão uma vara
de fogo e neutraliza a força que a umidade exerce sobre
a terra, para que esta não chegue a secar. Outro anjo
está no Aquilon e seu nome é Elvisthá.
Etalfatha tem a ser cargo o Aquilon. E ambos, ele e Mauch,
que está na Bóreas, mantêm em suas mãos
tochas incendiadas e varas de fogo para neutralizar o frio,
o frio dos ventos, de maneira que a terra não se resseque
e o mundo não pereça. Cedor cuida do Austro,
para que o sol não perturbe a terra, pois Levenior
apaga a chama que sai da boca daquele, para que a terra não
seja abrasada. Há outro anjo que exerce domínio
sobre o mar e reduz o empuxo das ondas. O mais não
estou a revelar.
Insistiu Bartolomeu:
- Anda dize-me, malfeitor e mentiroso, ladrão desde
o berço, cheio de amargura, engano, inveja e astúcia,
velho réptil, trapaceiro, lobo rapace, como te arrumas
para induzir os homens a deixar o Deus vivo, criador de todas
as coisas, que fez o céu e a terra e tudo que neles
está contido? Pois és sempre inimigo do gênero
humano.
Disse o Anticristo:
- Dir-te-ei. Es aqui uma roda que sobe do abismo e tem sete
facas de fogo. A primeira delas tem doze canais.
Perguntou-lhe Bartolomeu:
- Quem está nas facas?
Respondeu o Anticristo:
- No canal ígneo da primeira faca ficam os inclinados
ao sortilégio, à adivinhação e
à arte de encantamento e também os que neles
crêem e o buscam, já que por malícia de
seu coração buscaram adivinhações
falsas. No segundo canal de fogo vão os blasfemos,
que maldizem de Deus, de seu próximo e das Escrituras.
Também ficam ai os feiticeiros e os que os buscam e
lhes dão crédito. Entre os meus encontram-se
também os suicidas, os que se lançam à
água, ou se enforcam, ou se ferem com a espada. Todos
esses estarão comigo. No terceiro canal vão
os homicidas, os que se entregam à idolatria e os que
se deixam dominar pela avareza ou pela inveja, que foi o que
me arrojou do céu à terra. Nos demais canais
vão os perjuros, os soberbos, os ladrões, os
que desprezam os peregrinos, os que não dão
esmolas, os que não ajudam os encarcerados, os caluniadores,
os que não amam o próximo e os demais pecadores
que não buscam a Deus ou o servem debilmente. A todos
esses eu os submeto ao meu arbítrio.
Tornou, então, Bartolomeu:
- Dize-me, diabo mentiroso e insincero! Fazes tu essas coisas
pessoalmente ou por intermédio de teus iguais?
Respondeu-lhe o Anticristo:
-Oh se eu pudesse sair e fazer essas coisas por mim mesmo!
Em três dias destruiria o mundo inteiro. Desgraçadamente,
porém, nem eu nem nenhum dos que foram arrojados juntamente
comigo podemos sair. Temos, todavia, outros ministros mais
fracos que, por sua vez, atraem outros colegas ao quais emprestamos
nossa vestimentas e mandamos semear insídias que enredem
as almas dos homens com muita suavidade, afagando-as, para
que se deixem dominar pela embriaguez, a avareza, a blasfêmia,
o homicídio, o furto, a fornicação, a
apostasia, a idolatria, o abandono da Igreja, o desprezo da
Cruz, o falso testemunho, enfim, tudo o que Deus abomina.
Isso é o que nós fazemos. A uns nós os
deitamos ao fogo. A outros, nós os lançamos
das árvores para que se afoguem. A uns rompemos pés
e mãos e a outros lhes arrancamos os olhos. Estas e
outras coisas são o que fazemos. Oferecemos ouro e
prata e tudo mais que é cobiçável no
mundo e àqueles que não conseguimos que pequem
despertos fazemo-los pecar adormecidos. Também direi
os nomes dos anjos de Deus que nos são contrários.
Um deles chama-se Mermeoth, que é o que domina as tempestades.
Meus satélites o conjuram e ele lhe dá permissão
para que habitem onde queiram; mas ao voltar se incendeiam.
Há outros cinqüenta anjos que têm debaixo
do seu poder o raio. Quando algum espírito, dentre
os nossos, quiser sair pelo mar ou pela terra, esses anjos
desferem contra ele uma descarga de pedra. Com isso ateiam
o fogo e fazem fender as rochas e as árvore. E quando
conseguem dar conosco nos perseguem, obedecendo ao mandato
daquele a quem servem. Graças a esse mandato, tu podes
exercer poder sobre mim, pelo que me vejo obrigado, muito
a meu pesar, a revelar-te o segredo e as coisas que não
pensava dizer-te.
Continuou Bartolomeu:
- Que tens feito e o que continuas fazendo ainda? Revela-me,
Satanás!
Este respondeu:
- Tinha pensado não confessar-te todo o segredo, mas,
por aquele que preside ao Universo, cuja cruz me lançou
ao cativeiro, não posso ocultar-te nada.
Disse o Senhor Jesus a Bartolomeu:
- Afrouxa-lhes as ligaduras e ordena-lhe que retorne a seu
lugar até a vinda do Senhor. Quanto ao mais, já
me encarregarei eu mesmo de revelar-vos. Porque é necessário
nascer de novo para que aqueles que passaram pela prova possam
entrar no Reino dos céus, de onde foi expulso este
inimigo por sua soberba, juntamente com aqueles de cujo conselho
se servia.
Após isso, disse o apóstolo Bartolomeu ao Anticristo:
- Volta condenado e inimigo dos homens, ao abismo até
a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual há de
vir julgar os vivos e mortos e ao mundo inteiro por meio do
fogo e a condenar-te a ti e a todos os teus semelhantes. Não
tentes daqui em diante continuar praticando isso que foste
obrigado a revelar.
Satanás, lançando vozes misturadas com rugidos
e gemidos, disse:
- Ai de mim, que tenho me servido de mulheres para enganar
a tantos e acabei por ser burlado por uma virgem! Agora vejo-me
aferrolhado e atado com cadeias de fogo pelo seu filho e estou
ardendo de péssima maneira. Ó virgindade, que
estás sempre contra mim! Ainda não se passaram
os sete mil anos. como, pois, me vi condenado a confessar
as coisas que acabo de dizer?
O apóstolo Bartolomeu, admirando a audácia do
inimigo e confiando no poder do salvador, disse a Satã:
- Dize-me, imundíssimo demônio, a causa pela
qual foste banido do mais alto do céu. Pois prometeste
revelar-me tudo.
Respondeu o Diabo:
- Quando Deus se propôs a formar Adão, pai dos
homens, à sua imagem, ordenou a quatro anjos que trouxessem
terra das quatro partes do globo e água dos quatro
rios do paraíso. Eu estava no mundo naquela ocasião
e o homem passou a ser um animal vivente nos quatros rincões
da terra onde eu estava. Então Deus o abençoou
porque era sua imagem. Depois vieram render-lhe suas homenagens
Micael, Gabriel e Uriel. Quando voltei ao mundo, disse-me
o arcanjo Micael: adora essa figura que Deus fez segundo sua
vontade. Eu me dei conta de que a criatura havia sido feita
de barro e disse: eu fui feito de fogo e água e antes
do que este. Eu não adoro o barro da terra. De novo
me disse Micael: adora-o, antes que o Senhor se aborreça
contigo. Eu repliquei: o Senhor não se irritará
comigo. Eu vou colocar meu trono contra o dele. Então
Deus enfureceu-se comigo, mandou abrir as comportas do céu
e me arrojou à terra. Depois que fui expulso, perguntou
o Senhor aos demais anjos que estavam às minhas ordens
se se dispunham a render-se diante da obra que havia feito
com suas mãos e eles disseram: assim como vimos que
nosso chefe não dobrou sua cerviz, da mesma maneira
não adoraremos um ser inferior a nós. Naquele
momento mesmo foram eles expulsos como eu. Ficamos adormecidos
durante um período de quarenta anos. Ao despertar,
percebi que dormiam os que estavam abaixo de mim e os despertei,
seguindo meu capricho. Depois discuti com eles uma forma de
lograr o homem por cuja causa fui expulso do céu. Tomada
a resolução, descobri como podia seduzí-lo.
Tomei em minhas mãos umas folhas de figueira, enxuguei
com elas o suor do meu peito e das minhas axilas e atirei-as
ao rio. Eva, então, ao beber daquela água, conheceu
o desejo carnal e o ofereceu ao marido. A ambos pareceu doce
o sabor e não deram conta do amargo de haverem prevaricado.
Se não houvessem bebido dessa água, jamais poderia
eu enredá-los, pois outro meio eu não tinha
para poder superá-los senão esse.
O apóstolo Bartolomeu pôs-se a orar, dizendo
:
- Oh, Senhor Jesus cristo! Ordena-lhe que entre no Inferno
porque se mostra insolente comigo.
Disse Jesus Cristo a Satã:
-Vai, desce ao abismo e fica ali até minha chegada.
No mesmo instante o Diabo desapareceu.
Bartolomeu, caindo aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo,
começou a dizer, banhado em lágrimas:
- Abba! Pai! Tu que continuas sendo único e glorioso
Verbo do Pai, por que foram feitas todas as coisas; tu, a
quem não te puderam conter os sete céus e que
tiveste por habitar o seio de uma Virgem; a quem a Virgem
gerou e deu à luz sem dor; tu, Senhor, elegeste aquela
a quem verdadeiramente pudeste chamar mãe, rainha e
escrava. Mãe, porque por ela te dignaste descer e dela
tomaste carne mortal. E rainha porque a constituíste
rainha das virgens. Tu que chamas os quatro rios e eles obedecem
tuas ordens e se apressam a servi-te. O primeiro, o rio dos
Filósofos, para a unidade da Igreja e da Fé,
que foi revelada no mundo. O segundo, o Geon, porque foi feito
da terra, ou também pelos dois testamentos. O terceiro,
o tigre, porque aos que cremos no Pai, no Filho e no Espirito
Santo, Deus único por quem foram feitas todas as coisas
no céu e na terra, nos foi revelada a Trindade sempiterna,
que está nos céus. O quarto, o Eufrates, porque
tu te dignaste saciar toda alma vivente por meio do banho
da regeneração, que representava a imagem dos
Evangelhos que correm por toda a órbita da Terra e
que te dignaste anunciar por teus servos, para que, por meio
da confissão e da fé, sejam salvos todos os
que crêem em teu nome grande e terrível e em
teus santos Evangelhos, de maneira que possam alcançar
a vida que ainda não possuem.
Continuou Bartolomeu:
- É lícito revelar estas coisas a todos os homens.
Disse-lhe Jesus:
- Pode dá-las a conhecer a todos que sejam crentes
e observem este mistério que acabo de desvendar-vos.
Pois entre os gentios há alguns que são idólatras,
ébrios, fornicadores, maldosos, feiticeiros, malvados,
que seguem as artimanhas do inimigo e que odeiam o próximo.
Todos esses não são dignos de ouvir esse mistério.
Mas são dignos de ouvi-lo todos os que guardam meus
mandamentos, os que recebem em si as palavras de Vida eterna
que não têm fim, e todos os que têm fim,
e todos os que têm parte nos céus com os Santos,
justos e fiéis no reino do meu Pai. Todos aquele que
se hajam conservado imunes ao erro da iniquidade e hajam seguindo
o caminho da salvação e da justiça, devem
ouvir este mistério. E tu, Bartolomeu, és feliz,
juntamente a tua geração.
Bartolomeu, ao escrever todas essas coisas que ouviu dos lábios
de Nosso Senhor Jesus Cristo, mostrou toda sua alegria no
rosto e bendisse o Pai, o Filho e o Espirito Santo, dizendo:
- Glória a Ti, Senhor, redentor dos pecadores, vida
dos justo, amante da castidade.
O Senhor disse, então, batendo no peito:
- Eu, sou bom, manso e benigno, misericordioso e clemente,
forte e justo, admirável e santo, médico e defensor
de órfãos e viúvas, remunerador dos justos
e fiéis, juiz de vivos e mortos, luz de luz e resplendor
da claridade, consolador dos atribulados e cooperador dos
pupilos; Alegrai-vos comigo, amigos meus, e recebei meu presente.
Hoje vou dar-vos um dom celeste. A todos os que em mim tenham
depositado suas aspiração e sua fé, e
a vós, estou galardoando com a vida eterna.
Bartolomeu e os demais apóstolos puseram-se a glorificar
o Senhor Jesus, dizendo:
- Glória a ti, pai dos céus, rei da vida eterna,
foco de luz inextinguível, sol radiante e resplendor
da claridade perpétua, reis dos reis, senhor dos senhores.
A ti seja dada a magnificência, a glória, o império,
o reino, a honra e o poder, juntamente com o Pai e o Espirito
Santo. Bendito seja o Senhor Deus de Israel porque nos visitou
e redimiu seu povo da mão de seus inimigos e usou conosco
de misericórdia e justiça. Louvai a Nosso Senhor
Jesus Cristo todas as nações e crede que ele
é o juiz de vivos e mortos e o salvador dos fiéis.
O qual vive e reina, juntamente com o Pai e o Espirito Santo,
por todos os séculos dos séculos.
Amém.
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