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"Nos antigos tempos, a Psicologia ocultava-se inteligentemente
nas formas graciosas das dançarinas sagradas, no enigma
dos estranhos hieroglifos, nas belas esculturas, na poesia,
na tragédia e até na música deliciosa
dos Templos." (Samael Aun Weor)
A Psicologia
Gnóstica, ou Psicologia da Nova Era Aquariana, é
radicalmente diferente de tudo quanto antes se conheceu com
esse nome. Desde os antigos tempos, nos distintos cenários
do teatro da vida, a verdadeira Psicologia representou sempre
seu papel, disfarçada inteligentemente com a roupagem
da Filosofia. Às margens do Ganges, na Índia
sagrada dos Vedas, desde a noite aterradora dos séculos,
existem formas de Yôga que no fundo vêm a ser
a pura Psicologia Experimental dos altos vôos. Os Sete
Yôgas sempre foram descritos como procedimentos psicológicos.
No mundo
árabe, os sagrados ensinamentos dos súfis, em
parte metafísicos, em parte religiosos, são
de ordem totalmente psicológica. Na velha Europa, até
finais do século 19, a Psicologia disfarçou-se
com o traje da Filosofia para poder passar despercebida. A
Filosofia, apesar de todas as suas divisões e subdivisões,
como a lógica, a teoria do conhecimento, a ética,
a estética etc., é fora de toda dúvida,
em si mesma, cognição mística da Consciência,
do Ser, funcionalismo cognoscitivo da consciência desperta.
Enfim,
qualquer estudo profundo e sério das religiões
comparadas vem demonstrar-nos que na literatura sagrada, ortodoxa,
de diversos países e épocas, existem maravilhosos
tesouros da ciência psicológica. Investigações
de fundo no terreno do gnosticismo permitem-nos achar uma
maravilhosa compilação de autores gnósticos
que vêm dos primeiros tempos do cristianismo e que se
conhece com o título de Philokália.
Sem nenhuma
dúvida, podemos afirmar que a Philokália é
essencialmente psicologia experimental. Antes que a Ciência,
a Arte, a Filosofia e a Religião se separassem para
viver independentes, a Psicologia reinou soberana em todas
as antiqüíssimas Escolas de Mistérios.
Quando os Colégios Iniciáticos fecharam suas
portas ao mundo devido a esta Era de grande materialidade,
chamada no Oriente de Kali-Yuga, ou Idade Negra em
que ainda estamos vivendo, a Psicologia sobreviveu entre o
simbolismo das diversas escolas esotéricas e muito
especialmente no esoterismo gnóstico. Quando todos
compreendermos integralmente e em todos os níveis mentais
o quão importante é se estudar o homem sob o
ponto de vista da Psicologia Gnóstica, entenderemos
então que a Psicologia é nada menos que o estudo
dos princípios, leis e fatos intimamente relacionados
com a transformação radical do indivíduo.
A
BASE DA PHILOKÁLIA
A verdadeira base da Philokália reside em controlar
os pensamentos por meio de uma grande paz e tranqüilidade,
a fim de evitar os obstáculos exteriores.O homem deverá,
então, combater, talhar no bloco dos pensamentos negativos
que o rodeiam e impulsionar-se até Deus sem ceder ante
a vontade de seus pensamentos, senão que, ao contrário,
em meio a suas dispersões, reunir os pensamentos malvados
com os naturais. O Ser, sob o peso do Ego, avança como
que um rio que passa através de um canavial, como através
de uma espessura de arbustos e sarças. Aquele que quiser
atravessar esses obstáculos deve estender as mãos
e, penosamente, separar à força os obstáculos
que o aprisionam. Assim, os pensamentos do "Poder Inimigo"
envolvem a Consciência. É necessário,
pois, um grande zelo e uma extensa atenção de
espírito para reconhecer os pensamentos intrusos do
Poder Inimigo.
O Espírito é uma coisa e a Alma outra? O corpo
tem diferentes membros e, sem embargo, se diz: Um homem. Igualmente
a Psique possui vários membros: o Espírito,
a Consciência, a Vontade, os Pensamentos...Tudo isso
está unido em um mesmo pensamento, e os membros da
psique constituem o Homem Interior. Como os olhos do corpo
percebem de longe os espinhos, assim o espírito prevê
os enganos do Inimigo e previne a psique.
SOBRE
A ORAÇÃO PELA RESPIRAÇÃO
(Ou, a Invocação Incessante do nome de Jesus)
Existe, na vida das Igrejas do Oriente, e da Igreja Ortodoxa
Russa em particular, uma prática espiritual de oração
muito profunda: a Oração de Jesus, ou Oração
do Coração.
A mesma
foi introduzida na Rússia por volta do século
14 e São Sérgio, o fundador do monaquismo russo,
a conhecia e a praticava, assim como seus discípulos.
Entre eles, Niil da Sora é um dos mais destacados.
Outro monge muito conhecido, Paisij Velitchkovsky, a difundiu
e a popularizou no século 18.
Porém, através das Igrejas do Oriente, esta
prática remonta-se à tradição
dos padres bizantinos Gregório Palamas, Simeón
o Novo Teólogo, Máximo o Confessor, e Diadoco
de Fotice, assim como os Padres do Deserto dos primeiros séculos
Macário e Evágrio. Alguns chegam a vincular
esta Oração aos próprios Apóstolos.
Leiamos o que a Philokália diz: "Esta Oração
nos vem dos Santos Apóstolos. Servia-lhes para orar
sem interrupções, seguindo a exortação
de São Paulo aos cristãos gnósticos de
orar sem cessar".
Esta tradição
espiritual teve seus principais focos nos monastérios
do Sinai a partir do século 15, e no Monte Athos, especialmente
no século 14. Desde fins do século 18 expandiu-se
fora dos monastérios graças a uma obra, chamada
Philokália, publicada em 1782 por um monge
grego, Nicodemo o Hagiorita, e editada em russo pouco depois,
por Velitchkovsky. Outra obra mais recente, Relatos de
um Peregrino Russo, a popularizou no fim do século
19. Esse livro está extensamente difundido por toda
a Rússia.
A Oração de Jesus é uma corrente da espiritualidade
oriental. Porém, alguns vêem nela uma tipo especial
de mística psicológica.
Esta Oração
apóia-se nas exortações apostólicas:
"Orai sem cessar..." (Tes. I, 1: 17); "Fazei
a todo tempo, mediante o Espírito, toda classe de orações..."
(Ef. 6:18); e "... é necessário orar sempre
sem descanso" (Luc. 18:1). As palavras da fórmula
desta Oração podem variar, porém recomenda-se
aplicar uma fórmula breve e fixa. Isso toma o nome
de Oração Monológica. A Philokália
continua: "Que vossa Oração ignore toda
multiplicidade. Uma só palavra basta ao publicano e
ao filho pródigo para obterem o perdão de Deus.
Que não exista afetação nas palavras
de vossa oração: Quantas vezes o balbucio simples
e monótono dos bebês comove seus pais! Não
vos lanceis em longos discursos para não dissipar o
vosso espírito na busca de palavras. Uma só
palavra do publicano comoveu a misericórdia de Deus,
uma só palavra cheia de fé salvou o ladrão.
A prolixidade na oração a miúdo enche
o espírito de imagens e o dissipa, enquanto uma só
palavra tem por efeito recolhê-lo".
A
RESPIRAÇÃO DO NOME DE JESUS
A respiração serve de suporte e de símbolo
espiritual à Oração. "O nome de
Jesus é um perfume que se expande" (Cant, 1:4)
e que adoramos respirar. O sopro de Jesus é espiritual,
cura, afasta os demônios, comunica o Espírito
Santo (João 20: 2). O Espírito Santo é
Sopro Divino (spiritus, spirare), expiração
de amor no seio do Mistério Trinitário. A Respiração
de Jesus, como a pulsação do coração,
deveria estar ligada sem cessar a esse mistério de
amor, como também aos suspiros da criatura (Mat, 7:
34; 8: 12) e às aspirações que todo coração
humano leva em si. "O mesmo Espírito intercede
dentro de nós por gemidos inefáveis." (Rom,
8: 26)
A função
respiratória, essencial para a vida do organismo, está
ligada à circulação do sangue, ao ritmo
do coração, às fibras mais profundas
de nosso Ser. A respiração profunda do Nome
de Jesus é vida para a criatura: "O que dá
a todos a vida, a respiração e todas as coisas...
Nele temos a vida, o movimento e o Ser" (Atos, 17: 25
a 28). "Em lugar de respirar o Espírito Santo
– diz Gregório Sinaíta – estamos
transbordados pelo sopro dos elementos psicológicos
indesejáveis."
Adequando
a oração ao ritmo respiratório, o espírito
se acalma, encontra repouso (repouso = Hesychia; do grego,
daí o nome Hesicaismo, dado a esta corrente espiritual
da oração). O espírito libera-se da agitação
do mundo exterior, abandona a multiplicidade e a dispersão,
purifica-se do movimento desordenado dos pensamentos, das
imagens, das representações, das idéias.
Interioriza-se e se unifica ao mesmo tempo que ora com o corpo
e se encarna. Na profundidade do coração, o
espírito e o corpo reencontram sua unidade original
e o ser humano recobra sua "simplicidade". Convém
buscar o silêncio do espírito, evitar todos os
pensamentos, inclusive aqueles que parecem lícitos,
fixar-se constantemente nas profundidades do coração
e dizer: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus,
tem piedade de mim".
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"Recitando
atentamente essa Oração, permanecerás
sentado ou de pé, ou, inclusive, acostado, retendo
a respiração, na medida do possível,
para não respirar demasiadamente. Invoca o Senhor
Jesus com um desejo fervoroso e em uma paciente expectativa,
e abandona todo pensamento...
Se
vês a impureza dos maus espíritos, ou seja,
os pensamentos, encerrando o espírito no coração,
invoca o Senhor Jesus sem cessar e sem distrações,
e eles fugirão, invisivelmente queimados pelo
Nome Divino. A hesychia consiste em buscar
o Senhor em teu coração, ou seja, guardar
seu coração na oração e
encontrar-se constantemente no interior deste último..."
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A noção
de mérito está ausente da teologia oriental.
Não vos inquieteis pelo número de orações
a recitar. Que vossa única preocupação
seja que a oração brote de vosso coração,
vivente como uma fonte de água viva. Arrojai inteiramente
de vosso espírito a idéia de quantidade. Trata-se
de um exercício, certamente sustentado, que é
chamado de "atenção", ou inclusive
de "sobriedade" ou "trabalho espiritual",
ou ainda, "guarda do coração". É
uma vigilância da oração que quer ser
e advir incessante e penetrantemente na próprias fontes
do coração.
A
ORAÇÃO DO CORAÇÃO
A Oração de Jesus é também chamada
de Oração do Coração. Esta noção
do coração é essencial na espiritualidade
oriental e, em particular, na russa. Pode-se distinguir –
e opor – o coração à cabeça.
A cabeça seria o domínio do cerebral, do mental,
do intelectual, do lógico, do racional... Porém,
não deve ser reduzido unicamente ao domínio
do afetivo, do sentimento. É um homem de coração,
se diz às vezes, ou melhor, é uma mulher de
cabeça. O coração é uma dimensão
espiritual, onde tanto o corpo quanto a alma entremesclam
suas raízes. O coração é a
fonte vital do Ser.
"O
coração é o amo e o rei de todo o organismo
corporal, e quando a graça se apodera dos 'pastos do
coração', reina sobre todos os membros e todos
os pensamentos da alma, e é dali que ela espera o bem."
Alguns colocam o espírito no cérebro, como se
fosse uma Acrópole, outros lhe atribuem a região
central do coração, aquele que está livre
de todo alento animal. Já o coração é
designado como o centro do ser humano, a raiz das faculdades
ativas do intelecto e da vontade.
A
ILUMINAÇÃO DO CORAÇÃO
Quando a Oração de Jesus se converte na Oração
do Coração, seu primeiro efeito é a iluminação
psicológica. Não nos esqueçamos de que
ela é o grito suplicante do cego para obter a cura
(Lucas, 18: 38), ao que Jesus responde abrindo os olhos do
enfermo e dando-lhe Luz. Os olhos do coração
abrem-se à Luz Divina. O coração ilumina-se
e, logo, todo o Ser (Mateus, 6: 22). "Quando a inteligência
e o coração estão unidos na oração,
e os pensamentos da alma não estão dispersos,
o coração se amorna com um calor espiritual
e a Luz de Cristo resplandece nele, enchendo de paz e alegria
o homem interior."
A iluminação,
aportada pela Oração do Coração,
vem somente da Graça de Deus. "Só a Graça
Divina possui em si mesma a faculdade de comunicar a deificação
aos seres de uma maneira analógica. Então, a
natureza resplandece com uma luz sobrenatural e se encontra
transportada por cima de seus próprios limites por
uma sobreabundância de glória."
Porém,
a iluminação não se produz sem trabalho.
Ela, às vezes, só é dada ao término
de uma prolongada espera, de uma longa pena. Isso se deve
a que o coração é também o domínio
do pecado, do obscuro, das trevas. Lembremo-nos agora o sentido
das palavras da Oração: "Senhor
Jesus, tem piedade de mim, pecador". É
necessário forçar essa obscuridade pela contrição
e o verdadeiro arrependimento se possível com lágrimas.
É a graça pelo enternecimento a que imprime
na mirada e no rosto dos místicos do Oriente uma doçura
semelhante. Na atmosfera do coração, uma vez
purificado dos sopros dos espíritos maus (os eus)
é impossível (foi dito) que não brilhe
a Luz Divina de Jesus. Sempre, é claro, que não
se encha de orgulho, vaidade e presunção.
Essa iluminação
do coração procede de uma ação
do Terceiro Logos (o Espírito Santo), que é
Luz. Porém, é necessário não confundi-la
com as aspirações, as visões, as "luzes"
espirituais ou sensíveis. De fato, os Iniciados são
unânimes em recomendar que não se busquem tais
coisas. Não é necessário dedicar-se a
elas, nem se deixar distrair por elas, pois se deve guardar
uma grande sobriedade. A verdadeira Oração de
Jesus é sempre a "oração pura".
ORAÇÃO
CENTRANTE DA PHILOKÁLIA
Seguindo
a sugestão de Jesus de que o pecado ou o mal começa
com nossos pensamentos, Evágrio categoriza oito tipos
de pensamentos: aqueles sobre o Desejo – Gula, Concupiscência,
Avareza –, e aqueles de aversão ou irritabilidade
– Tristeza, Raiva, Vanglória e Orgulho. O oitavo
é Acedia, ou a Apatia, que é considerado o mais
sério tipo de pensamento, pois envolve a tentação
de desistir da jornada espiritual.
Evágrio reconhece que os obstáculos à
nossa total consciência de Deus, de estar em Paz em
Deus, começa com os pensamentos, que nos retiram de
nosso centro e de nosso completo descanso em Deus.
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Aprendendo
a controlar os pensamentos, não dando Atenção
ou colocando a Intenção neles, estes perdem
seu poder sobre nós. Com o passar do tempo, começamos
a atingir graus no estado de Apatheia (não
a apatia que conhecemos, como um estado de não-desejo,
de não-comprometimento com, langor, mas o desapego/desprendimento,
a não-identificação em relação
às coisas criadas), que é o estado de
calma, tranqüilidade ou paz, fruto da liberdade
das paixões e inquietações. Aqueles
que rezam atingem a liberdade, permitindo que pensamentos
nasçam e desapareçam sem que estes atinjam
o patamar do desejo (de, por exemplo, realizar o pensamento).
Esta
é uma compreensão que é chave para
o entendimento do caminho da paz e da liberdade. Para
Evágrio, isso é o portal, e apenas o portal
para o exercício pleno da Fé, que é
dar o nosso radical consentimento à Presença
e Ação de Deus em nós. Mas esta
é uma grande compreensão psicológica
e espiritual em relação à libertação,
tanto do pecado como dos nossos estados emocionais. |
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Ambos
se iniciam com pensamentos. Quanto mais conscientes estamos
dos pensamentos, mais podemos fazer nossas escolhas entre
nossos pensamentos, selecionar aqueles aos quais damos volição
(aqueles nos quais nos deleitamos, desejamos ficar com), bem
como arcar com as conseqüências dos mesmos. Discernimos
se os pensamentos nos levam à paz e a Deus, ou para
longe da paz e maior desarmonia com a Presença de Deus
dentro de nós. Também chegamos ao estado de
puro Ser, que é abaixo, acima, e além do Conhecimento.
A "prática",
então, conduz à apatheia – Apatia
–, que, por sua vez, conduz a um grande desejo para
o amor de Deus, que conduz à intencionalidade e ao
consentimento radical da entrega, de abandonar a nós
mesmos, nossas vidas, nossa vontade a Deus que habita em nós.
O segundo
elemento da prática é o de buscar através
de imagens e do mundo natural os significados internos da
Criação. Este é o modo catafático,
o caminho da reflexão, que busca de modo encarnacional
e intelectual um estado de maior devoção e compromisso
com o caminho espiritual, mantendo a mente fixa em Deus. Então,
de certa forma, o apego aos pensamentos é substituído
por pensamentos relacionados à busca de Deus.
O terceiro
elemento da prática é a contemplação
de Deus, ou oração pura. Este é o caminho
apofático da oração sem imagens, que
as duas primeiras práticas preparam. É então
o abandono de todos os pensamentos que preparam a pessoa como
um vaso, pronto a receber o presente da contemplação,
que é a consciência direta da Presença
Divina. "Feliz é o espírito que atinge
a perfeita ausência de formas na hora de sua oração...
Feliz é o espírito que atinge a completa não-consciência
de toda experiência sensível na hora da oração."
(Evágrio Pôntico)
A prática
de rezar com uma palavra ou frase das Escrituras foi levada
ao monasticismo ocidental na prática da Lectio
Divina, que permanece até hoje. Santo Isaías
o Solitário, um monge do deserto da Palestina, confirmou
que na prática da "lembrança de Deus",
que é um despertar para ou um descobrir a Presença
Divina que habita no interior do homem, os pensamentos tornam-se
um obstáculo a essa plena realização.
Interessante observar que ele usa um termo para oração,
"lembrança de Deus", usada pelos súfis
na prática do Dhikr ("Recordação",
que são os cantos repetitivos, como por exemplo La
Illah illa Allah, Não há outro Deus senão
Deus, ou Allah Hai, Deus é a Verdade). Contudo,
ele não formula uma metodologia para manter essa prática.
João Cassiano, importantíssimo Padre do Deserto,
em cujos relatos (São Bento mais tarde basearia sua
Regra dos Monges nos ensinos dele), do monasticismo egípcio,
na Conferência Dez, detalha o uso de uma fórmula
de oração usada como recurso para focalizar
a concentração na oração. Ele
relata como os monges do deserto incorporaram uma palavra
ou frase da Escritura como sua Palavra de Oração.
Usando uma "Palavra de Salvação" na
oração, ou no dar uma Palavra de Salvação
nos Ensinamentos e Bênçãos, era então
prática comum.
Ele recomenda
uma frase de um salmo, "Ó Deus, venha
em meu auxílio; Ó Senhor, apressai-vos em socorrer-me".
Ele vê essa repetição consciente, não
mecânica, como uma fórmula de oração
continuada a ser usada e incorporada na consciência,
de maneira que se torne o "orar sem cessar" (de
que nos fala São Paulo). Ele não receita ou
dá instruções sobre como lidar com os
pensamentos, mas, ao contrário, focaliza na "intenção"
pela qual o devoto retorna incessantemente à sua fórmula
de oração, direcionando todos os pensamentos
e desejos para Deus (note aí o início da Oração
Centrante). O deleite derivado dessa oração
permite ao devoto voltar-se de pensamentos e prazeres que
distraem e direcioná-los para Deus somente. O fim dessa
transformação pessoal é habitar no Amor.
"Então, será realizado em nós o
que nosso Salvador rezou quando falava a Seu Pai: "Que
o Amor que Tu me tens esteja neles e eles em nós".
A Oração
de Cassiano permanece como invocação primeira
na liturgia das horas até hoje. Em seguida a Cassiano,
houve um aprofundamento maior em relação à
oração na tradição do deserto.
Talvez o mais importante desenvolvimento desse período,
que continua na tradição Ortodoxa Oriental até
nossos dias, foi o da Oração de Jesus, como
uma poderosa e onipresente forma de "lembrança
de Deus". Pensava-se no poder da palavra "Jesus",
que, em si mesma, continha um efeito "salvífico"
e purificador, além do auxílio psicológico
no desapego de pensamentos perturbadores.
A tradição
oriental da oração do deserto é talvez
mais bem expressa por João Clímaco, um monge
que viveu perto do Sinai por volta do ano 600. Ele pregava
a oração de uma frase, chamada monologistos.
Ele acrescentou a dimensão de harmonizar a palavra
com a respiração. Em sua obra Escada da
Ascensão Divina, ele dá maiores dimensões
da prática contemplativa ortodoxa oriental. A prática
assim é apresentada, um passo após o outro:
1. Aquietar
os pensamentos (apothesis).
2. A lembrança de Jesus unida à respiração,
conduzindo a apreciação da Quietude (hesychia).
A fase inicial é o deixar de lado as distrações
na prática do monologistos, a fase mediana
é a concentração no que está sendo
dito, e a conclusão que é o arrebatamento em
Deus. O resultado dessa prática é a conversão
de todo desejo em um único desejo, Deus. "Conheço
hesicaístas cujo ímpeto inflamado por Deus é
sem-limites. Eles geram fogo por fogo, amor por amor, desejo
por desejo." (João Clímaco)
O uso
da Oração de Jesus, ou Oração
do Coração, passa por maior desenvolvimento
na tradição oriental, até o presente.
E, Philotheus do Sinai, em seus Escritos da Philokalia,
sobre a Oração do Coração, também
estende na psicologia dos pensamentos, pecado e vícios.
Ele descreve a habilidade da mente em resistir ou desapegar-se
de pensamentos e, conseqüentemente, encontrar maior liberdade.
Ele descreve o processo de enredar-se (prender-se) em pensamentos
como se segue.
1. Impacto:
o primeiro estágio quando o pensamento ou imagem é
produzido na mente.
2. Identificação: quando a mente se engaja com
algum ato da vontade ou interesse no pensamento ou imagem,
apego, em vez de desapego.
3. Mesclando-se ou fundindo-se com o pensamento: o envolvimento
da vontade e da ação com o pensamento ou imagem
escolhida.
4. Aprisionamento: a imagem ou pensamento tornam-se ativos
em uma escolha consciente na direção da ação
ou dependência, ou completo envolvimento no pensamento
ou imagem de um modo inarmônico com a busca de Deus.
Essa compreensão é consistente com as teorias
cognitiva/afetiva e cognitiva/comportamental da Psicologia
contemporânea.
Em resumo,
nos relatos dos Padres e Madres do Deserto monástico,
estes buscaram aprofundar sua busca da experiência de
Deus. Na sua busca e descobertas temos o essencial do que
conhecemos ser uma bem formulada prática da Oração
Centrante. Estas incluem, em primeiro lugar, a teologia da
Presença Divina em nós e a afirmativa que a
promessa dos Evangelhos de Jesus serão cumpridas em
nosso despertar para e em nosso consentimento à Presença
e Ação de Deus dentro de nós.
Outro
ensinamento essencial é que há um método
simples, um modo de consentir e obter a vitória sobre
os obstáculos de nossos próprios pensamentos,
nossa parcela da condição humana, a paz mais
profunda, alegria e completa transformação em
Deus, ao rezarmos no silêncio e na quietude no centro
mais profundo de nosso Ser. Podemos facilitar o processo com
um simples fundamento numa Palavra Sagrada, que é nosso
Símbolo do consentimento radical à Presença
e ação transformativa de Deus em nós.
Com o
tempo nossa Intenção é purificada e fortalecida,
de modo que perpassa toda a nossa prática de oração,
toda a nossa vida, conduzindo a um maior abandono a Deus.
E, ao final, os frutos dessa transformação em
Deus levam a uma maior capacidade de amar a Deus, a nós
mesmos, uns aos outros e o mundo onde vivemos e a servir ao
mundo com paz e justiça.
APOTEGMAS
DOS INICIADOS DO DESERTO
Evágrio: "Suprime as relações numerosas
se não quiseres que teu espírito divague e turve
tua soledade (hesychia)".
Cronios:
"Que a alma pratique a sobriedade, afasta-te das distrações
e renuncia às suas vontades; então, o Espírito
de Deus se aproximará a ela".
Poimen:
"Temos necessidade de uma só e única coisa,
que é uma alma sóbria". "O princípio
de todos os males é a distração".
RECOMENDAÇÕES
FINAIS
Se você quer realmente render
culto a Deus, mantenha no segredo de seu coração
uma pregação ininterrupta, e assim sua alma
chegará a Ser, ainda antes da morte, igual aos anjos.
Nosso
corpo, privado da alma, está morto e cheira mal. Assim
é a alma indolente ao Ensinamento, está morta,
é miserável e mal cheirosa.
A
cada uma de vossas respirações, agregue a sobriedade
do espírito e o Nome de Jesus, a meditação
sobre a morte e a humildade.
Fale
de Deus com mais freqüência, mais do que você
usa para comer algum alimento.
Dedique-se
a pensar em Deus mais do que você respira.
É
mais necessário recordar a Deus do que respirar.

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