|
Claro
que vocês estão aqui presentes para escutar-me,
e eu estou aqui para falar-lhes, mas é necessário
que entre nós haja uma verdadeira comunhão de
almas e que nos proponhamos a inquirir a nós mesmos,
indagar, buscar, tratar de saber... com o objetivo evidente
de conseguir uma orientação no caminho da Auto-Realização
Íntima do Ser. Saber
escutar é muito difícil; saber falar é
mais fácil. Acontece
que quando alguém escuta, precisa estar aberto ao novo,
com mente espontânea, livre de idéias pré-concebidas
e de preconceitos. Mas acontece que o Ego, o Eu, o Mim Mesmo,
não sabe escutar, traduz tudo com base em seus preconceitos
e interpreta tudo de acordo com o que tem armazenado no centro
formativo.
Qual é
o centro formativo? A memória. Por que é chamado
de centro formativo? Porque aí tem lugar a formação
intelectual dos conceitos.
Entendido
isto, faz-se urgente aprender a escutar com mente nova, e
não, repito, com o que temos armazenado na memória.
Depois
deste preâmbulo, vamos tratar de nos pôr de acordo,
vocês e eu, sobre idéias, conceitos, etc.
Antes
de mais nada, é imprescindível saber se o intelecto,
por si mesmo, pode levar alguém, alguma vez, à
experiência do Real. Há intelectos brilhantes,
não podemos negar, mas eles jamais experimentaram Isso
que é a Verdade.
Também
não será demais saber que em nós existem
três mentes. Poderíamos denominar a primeira
de Mente Sensual, a segunda podemos considerar como a Mente
Intermediária e a terceira é a Mente Interior.
Mas pensemos
um pouco no que é esta mente sensual, que todos usamos
diariamente. Eu diria que ela elabora seus conceitos de conteúdo
com os dados fornecidos pelos cinco sentidos, e com o conteúdo
desses conceitos forma seus raciocínios.
Vendo
as coisas deste ângulo, é óbvio que a
razão subjetiva ou sensual tem por base as percepções
sensoriais exteriores. Se como único recurso de seu
funcionamento estão exclusivamente os dados recolhidos
pelos cinco sentidos, não há dúvida de
que tal mente não terá acesso a algo que escape
do círculo vicioso das percepções sensoriais
externas e, obviamente, nada poderá saber de real sobre
os mistérios da vida e da morte, sobre a Verdade, sobre
Deus, etc. Pois de onde poderá uma mente assim conseguir
informações, se sua única fonte de nutrição
são os dados recolhidos pelos sentidos? Obviamente,
não tem como poder conhecer o Real.
Nestes
instantes, chega-nos à memória algo muito interessante.
Certa vez, houve um grande congresso na Babilônia, na
época dos esplendores egípcios. Veio muita gente,
da Assíria, do Egito, da Fenícia, etc, É
claro que o tema era interessante: procurar saber, à
base de puras discussões analíticas, se o ser
humano tinha ou não tinha alma.
É
óbvio que então os cinco sentidos já
estavam bem degenerados; só assim podemos explicar
que aquelas pessoas escolhessem este tema como motivo de tal
congresso.
Em outros
tempos, um congresso assim teria sido ridículo. Os
lemurianos nunca pensariam em celebrar um congresso assim,
porque as pessoas do continente Mu só precisariam sair
do corpo para saber se tinham ou não tinham alma, o
que faziam com tremenda facilidade, pois não estavam
propriamente atrasados no manejo do mecanismo físico.
Um tema
desse tipo só poderia ocorrer a uma humanidade degenerada,
em involução.
E aconteceu
que tanto a favor como contra houve muitas opiniões.
Por fim, subiu à tribuna da eloquência um grande
sábio assírio. Aquele homem havia se aprimorado
no Egito, havia estudado nos Mistérios e falou em voz
alta:
A razão
nada pode saber sobre a Verdade, sobre o real, sobre a alma,
sobre o imortal. A razão serve tanto para sustentar
uma teoria espiritualista como uma teoria materialista. Poderia
elaborar uma tese espiritual com uma lógica formidável
e poderia também estruturar, em oposição,
uma tese materialista com uma lógica similar. A razão
subjetiva, sensual, nutrida pelos dados recolhidos pelos cinco
sentidos, serve para as duas coisas, pode fabricar teses espiritualistas
ou materialistas, logo não é algo em que se
possa confiar.
Existe
um sentido diferente, trata-se do sentido de percepção
instintiva das verdades cósmicas; esta é uma
faculdade do Ser.
Quanto
à razão subjetiva, esta por si mesma não
pode nos dar verdadeiramente nenhum dado sobre a verdade,
sobre o real.
A razão
sensual nada pode saber dos mistérios da vida e da
morte.
E aquele
sábio acrescentou:
Vocês
me conhecem. Tenho prestígio diante de vocês.
Sabem muito bem que venho do Egito. Não há dúvida
de que minha vida foi diferente e minha mente sensual não
conseguiria recolher dados sobre o Real.
E continuou
a falar ainda aquele homem e explicou aos orgulhosos:
Vocês,
com seus raciocínios, não podem saber nada sobre
a Verdade, sobre a alma e sobre o espírito. A mente
racional não pode saber nada disso.
Bem, aquele
homem concluiu seu discurso com muita eloquência e retirou-se,
afastou-se definitivamente de todo academicismo. Preferiu
deixar de lado o raciocínio subjetivo e desenvolver
em si aquela faculdade antes citada por ele e que se conhecia
com o nome de percepção instintiva das verdades
cósmicas, faculdade que outrora a humanidade em geral
tivera, mas que se atrofiou conforme o Eu Psicológico,
o Mim Mesmo, o Si Mesmo, foi se desenvolvendo.
Dizem
que aquele sábio assírio, egresso do Egito,
afastado de toda escola, foi cultivar a terra e confiar exclusivamente
naquela prodigiosa faculdade do Ser, conhecida como Percepção
Instintiva das Verdades Cósmicas.
Porém,
iremos um pouco mais longe. Há uma mente diferente
da mente sensual. Quero me referir, de forma enfática,
à mente intermediária. Nesta mente intermediária
encontramos todo tipo de crenças religiosas. Obviamente,
os dados fornecidos pelas religiões são absorvidos
pela mente intermediária.
Por último,
existe ainda a mente interior, a qual, em si mesma e por si
mesma, trabalha exclusivamente com os fatos recolhidos pela
consciência do Ser. A mente interior jamais poderia
funcionar sem os dados que a consciência interior do
Ser lhe proporciona.
Eis aqui
as três mentes.
A mente
sensual, com todas suas teorias e excessos, é conhecida
nos evangelhos como a levedura dos saduceus. Jesus Cristo
adverte dizendo: Cuidai-vos da levedura dos saduceus, isto
é, das doutrinas materialistas, ateístas, como
a dialética marxista, etc. Este tipo de doutrina corresponde
exatamente à doutrina dos saduceus, da qual falava
o Cristo.
Mas o
Senhor de Perfeição também adverte quanto
à doutrina dos fariseus, a qual corresponde à
mente intermediária. E quem são os fariseus?
São aqueles que frequentam seus templos, suas escolas,
religiões, seitas, etc., a fim de que todos os vejam.
Escutam
a palavra, mas não a executam em si próprios.
São como o homem que se olha num espelho e vai embora.
Frequentam
unicamente para que os outros os vejam, mas jamais trabalham
sobre si mesmos. Isso é gravíssimo! Contentam-se
com meras crenças. Não interessa-lhes a transformação
íntima total. Perdem seu tempo miseravelmente e fracassam.
Afastemo-nos,
pois, da levedura dos saduceus e dos fariseus. Pensemos em
abrir a mente interior.
Como a abriremos? Sabendo pensar de maneira psicológica;
é assim que se abre a mente interior. Como ela trabalha
com os dados da consciência superlativa do Ser, experimenta-se,
graças a isso, a realidade dos diversos fenômenos
da natureza.
Com a
mente interior aberta, poderemos falar, por exemplo, sobre
a lei do Karma, não pelo que se disse ou pelo que se
deixou de dizer, mas por experiência direta. Com a mente
interior aberta, ficamos também suficientemente preparados
para falar sobre a reencarnação, sobre a lei
do eterno retorno de todas as coisas, sobre a lei da transmigração
das almas, etc. E o faremos, de fato, não baseados
no que lemos de alguns autores ou no que escutamos, mas no
que nós mesmos experimentamos de forma real e direta.
Immanuel Kant, o filósofo, faz uma distinção
entre a crítica da razão subjetiva e a crítica
da razão pura.
Não
há dúvida que a razão subjetiva, racional,
jamais poderia nos trazer nada que não pertencesse
ao mundo dos cinco sentidos. O intelecto, por si mesmo, é
racional e subjetivo. Sempre que ouvir falar de temas como
reencarnação, karma, etc, exigirá provas,
demonstrações.
As verdades
que só podem ser percebidas pela mente interior, jamais
poderiam ser demonstradas à mente sensual. Exigir provas
no mundo sensorial externo equivale a exigir de um bacteriólogo
que estude os micróbios com um telescópio ou
exigir a um astrônomo que estude os astros com um microscópio.
Exigem provas que não podem ser dadas à razão
subjetiva porque esta não tem nada que ver com aquilo
que não pertence ao mundo dos cinco sentidos.
Temas
como reencarnação, karma, vida após a
morte, etc., são, de fato, exclusividade da mente interior,
e nunca da mente sensual. À mente interior pode-se
demonstrar, mas antes, exige-se do candidato que tenha aberto
sua mente interior. Se não a abriu, como faríamos
para efetuar uma demonstração desse tipo? Impossível,
não é verdade?
Visto
isto com clareza, convém que agora nos aprofundemos
um pouco na questão das faculdades. O intelecto, por
si mesmo, é uma das faculdades mais toscas dos níveis
do Ser. Se quisermos tornar tudo intelecto, jamais chegaremos
à compreensão das verdades cósmicas.
Indubitavelmente,
além do intelecto há outra faculdade de cognição.
Quero me referir de forma enfática à Imaginação.
Muito se subestimou esta faculdade e alguns até a chama
pejorativamente de a louca da casa, título injusto,
porque se não fosse ela não haveria o automóvel,
os aparelhos gravadores, o trem, etc. O sábio que quiser
inventar alguma coisa, primeiro terá de a imaginar
e em seguida passar a imagem para o papel. O arquiteto que
quiser construir uma casa, primeiro terá de imaginá-la,
depois sim poderá traçar a planta.
Portanto,
a imaginação permitiu a criação
de todos os inventos, logo não é algo desprezível.
Não
podemos negar que há várias categorias de imaginação.
A primeira, poderíamos chamar de imaginação
mecânica, que seria a mesma fantasia, que obviamente
é constituída pelos resíduos da memória,
sendo até prejudicial.
Mas existe
outro tipo de imaginação que é na realidade
a imaginação intencional ou imaginação
consciente.
A própria
Natureza possui imaginação, isso é óbvio!
Se não fosse pela imaginação, as criaturas
da natureza seriam cegas. Mas graças a essa poderosa
faculdade a percepção existe, as imagens formam-se
no centro perceptivo do Ser ou centro perceptivo das sensações.
A imaginação criadora da Natureza deu origem
às múltiplas formas existentes em tudo o que
é.
Na época
dos hiperbóreos, ou dos lemurianos, não se usava
o intelecto, usava-se a imaginação. O ser humano
era inocente, e o Cosmos, em maravilhoso espetáculo,
se refletia como num lago cristalino sobre sua imaginação.
Era um outro tipo de humanidade...
Hoje,
causa dor ver como as pessoas perderam até a própria
imaginação, isto é, esta faculdade degenerou-se
espantosamente. O desenvolvimento da imaginação
é possível. Isto nos levaria além da
mente sensual, isto nos levaria a pensar psicologicamente.
Somente
com o pensar psicológico podem ser abertas as portas
da mente interior. Se alguém desenvolve a imaginação,
aprende a pensar psicologicamente.
Imaginação,
inspiração e intuição são
os três caminhos obrigatórios da Iniciação.
Mas se ficamos engarrafados exclusivamente no funcionamento
sensorial do aparato intelectual, não será possível.
subir pelos degraus da imaginação, da inspiração
e da intuição
Não
quero dizer que o intelecto seja inútil. Longe estou
de fazer tão grande afirmação. Estou
é esclarecendo conceitos. Toda faculdade é útil
dentro de sua órbita. Um planeta qualquer é
útil em sua órbita, fora dela é inútil
e catastrófico. A mesma coisa acontece com as faculdades
do ser humano. Elas têm sua órbita. Querer tirar
a razão de sua órbita, a razão sensual,
é absurdo, porque caímos no ceticismo materialista.
Muita gente, chamemo-los estudantes de pseudo-esoterismo e
pseudo-ocultismo (tão em voga por estes tempos), estão
sempre lutando contra as suas dúvidas.
Por que muitos andam borboleteando de escola em escola, chegando
por fim à velhice sem ter realizado nada?
Através
da própria experiência, pude observar que os
que ficam engarrafados no intelecto, fracassam.
Aqueles
que querem comprovar com o intelecto as verdades que não
são do intelecto, fracassam. Cometem o erro de querer
estudar astronomia, falando simbolicamente, com o microscópio
ou o de estudar bacteriologia com o telescópio.
Deixemos
cada faculdade em seu lugar, em sua órbita. Precisamos
pensar psicologicamente.
É
óbvio que devemos repelir com firmeza a doutrina chamada
levedura dos saduceus e dos fariseus e aprender a pensar psicologicamente,
o que não seria possível se continuássemos
engarrafados no intelecto. Vale mais começar a subir
pela escada da imaginação, depois passaremos
ao segundo escalão, da inspiração, para
por fim chegarmos à intuição.
Vejamos
como a imaginação se desenvolve. Muitos exercícios
científicos podem ser realizados. Muitas vezes falei
sobre o exercício do copo com água; trata-se
de um exercício fácil.
Colocamos um copo com água à nossa frente. No
fundo do copo, pomos um pequeno espelho. Acrescentamos azougue
(mercúrio) à água, algumas gotas. A concentração
é feita no meio da água, isto é, sobre
a água, de forma tal que a visão atravesse o
vidro.
Assim teremos um esplêndido exercício para o
desabrochar da imaginação. Trataremos de ver
nessa água a luz astral.
Faremos
um grande esforço para vê-la. É óbvio
que no princípio não veremos nada, porém,
depois de algum tempo de exercício, começa-se
a ver a água colorida, começa-se a perceber
a luz astral; o sentido da auto-observação psicológica
entre em atividade.
Bem mais
tarde, se passar um carro pela rua, por exemplo, uma faixa
de luz será vista na água e o carro andando
por ela. Isto indicará que já se começa
a perceber com a faculdade transcendental da imaginação.
Por fim, chegará o dia em que não mais se precisará
do copo com água para ver, porque se estará
vendo o ar com diferentes cores, se estará vendo a
aura das pessoas.
Bem sabemos
que cada pessoa carrega uma aura de luz ao seu redor e que
essa aura tem diversas cores. O cético carrega sempre
uma aura de cor verde brilhante, o devoto uma aura de cor
azul, o amarelo revela muito intelecto, o verde sujo ceticismo,
o cinza tristeza, o cinza chumbo muito egoísmo, o negro
representa o ódio, o vermelho sujo a luxúria
e a fornicação, o vermelho brilhante ou cintilante
a ira, etc.
Claro
que para poder ver assim a aura das pessoas há que
trabalhar muito neste exercício. Por pelo menos uns
três anos, dez minutos diários, sem deixar de
trabalhar um único dia. Se alguém tem essa firmeza
para praticar tal exercício por dez minutos diários,
chegará o momento em que a faculdade da imaginação,
ou clarividência, ficará plenamente desenvolvida.
Clarividência é apenas outro termo que se aplica
à imaginação.
Mas este não seria o único exercício
para desenvolver esta faculdade. É necessário
algo mais, é necessário meditação.
Sentados em uma cômoda poltrona, com o corpo bem relaxado,
ou deitados na cama com a cabeça para o norte, devemos
imaginar alguma coisa, por exemplo: a semente de uma roseira.
Imaginemos que ela foi semeada cuidadosamente em uma terra
negra e fértil e que agora a regamos com a água
pura da vida.
Continuamos
com o processo imaginativo, transcendental e transcendente
ao mesmo tempo, visualizando como brotam espigas no talo no
processo do crescimento, como se desenvolvem maravilhosamente,
como surgem as espigas daquele talo e por fim os raminhos
e as folhas. Imaginamos como por sua vez aqueles raminhos
cobrem-se se folhas completamente e aparece um botão
que se abre deliciosamente; é a rosa.
No estado de mantéia, como diziam os iniciados de Elêusis,
falando dos gregos, chegamos até a sentir o próprio
aroma que escapa das pétalas vermelhas ou brancas da
preciosa rosa.
A segunda
parte do trabalho imaginativo consistiria em visualizar o
processo do morrer de todas as coisas. Poderia se imaginar
como aquelas perfumadas pétalas vão caindo,
como pouco a pouco vão murchando, como aqueles ramos
outrora tão fortes convertem-se, depois de algum tempo,
em um montão de lenha. Por fim, chega o vendaval, o
vento, e arrasta todas as folhas e toda a lenha.
A meditação profunda sobre o processo do nascer
e do morrer de todas as coisas é um exercício
que deve ser praticado de forma assídua, diariamente.
É claro que com o tempo nos dará a percepção
interior profunda daquilo que poderíamos denominar
de mundo astral.
É bom ainda advertir a todo aspirante que qualquer
exercício esotérico, incluindo este, requer
continuidade de propósito. Se praticamos hoje e amanhã
não, cometemos um erro gravíssimo. Havendo de
verdade aplicação no trabalho esotérico,
o desenvolvimento dessas preciosas faculdades da imaginação
torna-se possível.
Quando,
durante a meditação, surgir em nossa imaginação
algo novo, algo diferente da rosa, será sinal evidente
que estamos progredindo. No princípio, as imagens carecem
de colorido, mas conforme formos trabalhando, elas irão
se revestindo de múltiplos encantos e cores.
Progredindo no desenvolvimento interior profundo, avançando
um pouco mais nesta questão, chagaremos à recordação
de nossa vidas anteriores.
Inquestionavelmente, quem tiver desenvolvido em si mesmo a
faculdade imaginativa, poderá tentar capturar ou apreender,
com este translúcido, o último instante de sua
passada existência. Esse espelho translúcido
da imaginação o refletirá moribundo em
seu leito. Assim, alguém poderia ter morrido num campo
de batalha, ou num acidente; seria interessante ver o que
nos acompanhou nos últimos instantes da existência
passada.
Continuando
com este processo tão maravilhoso relacionado com a
imaginação, poderia se tentar conhecer não
só o último instante da vida anterior, mas o
penúltimo, o antepenúltimo, os últimos
anos, os penúltimos, a juventude, a adolescência,
a infância, etc. Assim se recapitularia toda uma vida
passada. Indo mais longe, isso permitiria também que
capturássemos cada uma de nossas vidas anteriores.
Assim chegaríamos, por experiência direta, a
verificar a lei do eterno retorno de todas as coisas.
Não é precisamente o intelecto que pode verificar
esta lei. Com o intelecto, podemos talvez discutir, afirmar
ou negar, mas isso não é verificação.
Assim, pois, convido todos à compreensão.
A imaginação abrirá as portas dos paraísos
elementais da natureza, pois é com a imaginação
que tratamos de ver uma árvore.
Se meditamos
na mesma, veremos que é composta de uma multidão
de pequenas folhas; mas se conseguimos nos aprofundar um pouco
mais e ver a sua vida íntima, perceberemos sem dúvida
alguma isso que poderíamos denominar de essência
ou alma; quando alguém está em estado de êxtase,
percebe a consciência do vegetal. E pode ver, com toda
clareza, que esta é uma criatura elemental, uma criatura
que tem uma vida não perceptível para os cinco
sentidos, não perceptível para a capacidade
intelectual, uma vida excluída completamente do processo
sensorial. É interessante saber que em passos posteriores
pode-se chegar a conversar, dialogar, com os elementais.
Obviamente,
na quarta vertical, há surpresas insólitas.
Indubitavelmente, a Terra Prometida da qual nos fala a Bíblia
é a própria quarta dimensão, a quarta
vertical da natureza; o paraíso terrestre é
a quarta coordenada. Quando se diz: A terra prometida onde
os rios de água pura vertem leite e mel, faz-se referência
justamente à quarta dimensão do nosso planeta
Terra.
A imaginação
criadora constitui-se no espelho da alma. Quem a desenvolver
mediante regras esotéricas exatas, fora de dúvida,
terá a comprovação do que estou afirmando
aqui de forma enfática. Convido-os claramente à
análise psicológica, convido-os a desenvolver
essa qualidade cognoscitiva conhecida como imaginação;
ela é uma faculdade extraordinária. A imaginação
criadora permite a alguém saber por si mesmo que a
Terra é um organismo vivo.
Nestes momentos, chega-nos à memória aquela
afirmação neoplatônica de que a alma do
mundo está crucificada na Terra.
Essa alma do mundo é um conjunto de almas, um conjunto
de vidas que palpitam e têm realidade.
Para os povos hiperbóreos, os vulcões, os mares
profundos, os metais, as gargantas das montanhas, o furioso
vento, o fogo flamejante, as pedras rugidoras, as árvores,
etc., não eram senão o corpo dos Deuses. Aqueles
hiperbóreos não viam a Terra como algo morto.
Para eles o mundo estava vivo, era um organismo que tinha
vida e a tinha em abundância. Então, falava-se
no orto puríssimo da linguagem divina que, como um
rio de ouro, corre sob a espessa selva do sol. Sabia-se tocar
a lira e dela arrancava-se as mais extraordinárias
sinfonias. A lira de Orfeu não tinha caído ainda
no pavimento; não se partira em pedaços.
Esses
eram outros tempos, essa era a época da antiga Arcádia,
quando se rendia culto aos Deuses da aurora, quando se festejava
todo nascimento com festas místicas transcendentais.
Se vocês desenvolveram de forma eficiente a faculdade
da imaginação, não somente poderão
recordar suas vidas anteriores, como ainda comprovar de forma
específica o que aqui estou expressando didaticamente
com completa clareza. Mas a imaginação, por
si mesma e em si mesma, não é mais do que o
primeiro escalão. Há um segundo escalão
mais elevado que é a Inspiração.
A faculdade
da inspiração permite-nos dialogar, frente a
frente, com toda partícula de vida elemental. A faculdade
da inspiração permite que sintamos em nós
mesmos o palpitar da cada coração. Voltemos
novamente, por um momento, ao exercício da roseira.
Se depois de tudo, se concluído o meditar no nascer
e no morrer da mesma, desaparecidas a lenha e as pétalas
da rosa, queremos ainda saber de mais alguma coisa, precisamos
de inspiração. A planta nasceu, deu frutos,
morreu e depois de tudo o que vem?
Necessitamos da inspiração para saber qual é
o significado desse nascer e morrer de todas as coisas. A
faculdade da inspiração é ainda mais
transcendental e precisa de um gasto maior de energia. Trata-se
de deixar de lado o símbolo sobre o qual estivemos
meditando, trata-se agora de capturar o seu significado interior.
Para isso, precisa-se da faculdade da emoção.
O centro emocional vem, pois, valorizar o trabalho esotérico
da meditação, ele permite que nos sintamos inspirados.
E então, inspirados, conheceremos o significado do
nascer e do morrer de todas as coisas.
Com a
imaginação, poderemos verificar a realidade
da existência interior, com a inspiração
poderemos capturar o significado dessa existência, seu
motivo, sua causa, seu porquê, etc. A inspiração
está um passo além da faculdade da imaginação
criadora. Com a imaginação, podemos verificar
a realidade da quarta vertical, porém a inspiração
permitirá que capturemos seu significado profundo.
Por último, além da faculdade da imaginação
e da inspiração, teremos de chegar às
alturas da intuição. Assim, imaginação,
inspiração e intuição são
os três degraus da Iniciação.
A intuição é algo diferente. Voltemos
à roseira do nosso exemplo. Indubitavelmente, com o
processo da imaginação, durante o exercício
esotérico transcendental e transcendente, vimos os
processos: vimos como a roseira cresceu, como floriu suas
rosas e por último como morreu e se converteu num monte
de lenha. A inspiração permite que saibamos
o significado de tudo isso, mas a intuição nos
levará à realidade espiritual disso. Através
dessa preciosa faculdade superlativa, entraremos num mundo
de uma espiritualidade singular e nos encontraremos face a
face com o elemental visto com a imaginação,
o elemental da roseira.
Ainda mais, nos encontraremos com a chispa virginal, com a
mônada divina, com a suprema partícula divina
da roseira. Entraremos num mundo onde estão os Elohim
criadores citados na Bíblia hebraica ou mosaica. Veremos
todas as hostes criadoras do Exército da Palavra, isto
é, teremos achado o Demiurgo criador do universo.
É
a intuição que permite conversar frente a frente
com os Elohim, com os Tronos, os quais já não
serão para nós mera especulação
ou crença; doravante serão uma realidade palpável,
manifestada. A intuição permitirá o nosso
acesso às seções superiores do universo
e do cosmos. Através da intuição, poderemos
estudar a cosmogênese, a antropogênese, etc. Ela
permitirá que entremos nos templos da Fraternidade
Universal Branca, onde estão os Elohim, Kumarás
ou Tronos. Ela permitirá que nós conheçamos
a gênese de nosso mundo e poderemos até assistir
a própria aurora da criação; saber, não
porque alguém tenha dito, mas por via direta, como
surgiu este mundo que habitamos, de que forma foi criado,
de que maneira fez sua aparição no concerto
dos mundos. A intuição permitirá que
saibamos, de forma específica e direta, aquilo que
os brilhantes intelectuais da época não sabem.
Há
muitas teorias a respeito do mundo, do universo e do cosmos,
as quais passam constantemente de moda como os remédios
de farmácia, como a moda das senhoras e dos cavalheiros.
A uma teoria, segue outra e outra; por fim, o intelecto não
consegue senão fantasiar graciosamente e especular,
sem poder jamais experimentar a realidade. No entanto, a intuição
permite que se conheça o real; ela é uma faculdade
cognoscitiva transcendental. Quão grandioso é
poder assistir ao espetáculo da criação!
Sentir-se por uma momento fora da criação e
olhar o mundo como se ele fosse um teatro e nós os
espectadores.
Perceber como um cometa sai do caos e o Real Ser dá
origem a uma unidade cósmica.
Isto é intuição; aquilo que nos permite
saber que a Terra existe devido ao Karma dos Deuses. Se não
fosse por isto, não existiria; é a intuição
que permite a alguém verificar o cru realismo desse
Karma. Certamente, aqueles Elohim, cujo conjunto vem a constituir
o divino, atuaram num passado ciclo de manifestação
muito antes de a Terra e o sistema solar terem surgido à
existência.
Vejamos
um caso bastante simpático. Muito se discute sobre
a Lua. Muita gente pensa que ela é um pedaço
da Terra que foi lançado ao espaço pela força
centrífuga, algo assim como o disparo de um foguete
atômico. A intuição permite que se vislumbre
que as coisas aconteceram de forma completamente diferente.
Através da intuição, vimos a saber que
a Lua é muito mais antiga que a Terra.
Por isso,
nossos antepassados de Anahuac diziam: a avó Lua. Ela
é obviamente nossa avó, pois, se ela é
a mãe da Terra e a Terra é a nossa mãe...
Nossa avó; conceitos sábios de Anahuac.
A Terra surgiu realmente muito mais tarde no correr dos séculos.
A Lua foi um mundo rico no passado; teve vida mineral, vegetal,
animal e humana, mares profundos, vulcões em erupção,
etc. Os próprios cientistas atuais tiveram de se render
diante da evidência concreta de que a Lua é mais
antiga do que a Terra. Aqueles Iniciados que cometeram o erro
de afirmar que a Lua era um pedaço que se desprendeu
da Terra, agora ficaram mal, já que se verificou no
estudo com aparelhos especiais dos metais trazidos da Lua
que esta é mais antiga que a Terra. Ela teve humanidade,
teve vida vegetal, foi um mundo rico.
Por que a Lua se transformou assim? A intuição
permite a qualquer um saber que tudo que nasce tem de morrer.
Todo mundo do espaço estrelado, com o tempo converte-se
em uma Lua. Esta Terra que habitamos um dia envelhecerá
e morrerá, converter-se-á em uma outra Lua.
Há Luas pesadas, como a que gira ao redor do sol Sírio,
que chegam a ter uma densidade cinco mil vezes maior que a
do chumbo.
Assim, voltando a nossa Lua, diremos que é a mãe
da Terra. Por que faço tão tremenda afirmação?
Mediante
a mesma intuição, vemos como aquela velha Lua,
nossa avó, a anima mundi luna crucificada naquele satélite,
depois de ter submergido no seio do Eterno Pai Cósmico
Comum, o Absoluto, quando chegou uma nova época de
manifestação, depois de um longo intervalo,
quando chegou de novo outro Grande Dia de atividade, aquela
mãe Lua, aquela anima mundi, reconstruiu um novo corpo,
formou seu novo corpo que é esta Terra e se reencarnou.
Todas as criaturas que outrora existiram na Lua morreram,
mas os germes da vida, os germes de toda vida animal, vegetal
ou humana não morreram. Esses germes projetados pelos
raios cósmicos ficaram depositados aqui neste novo
planeta, até os germes de nossos próprios corpos.
Por tal motivo, somos filhos da Lua. Ela é a mãe
de todo ser vivo. Ela é a mãe da Terra.
Quando
alguém faz uma afirmação destas diante
de um grupo de pessoas instruídas, diante dos eruditos
do intelecto, diante daqueles que estão acostumados
a fazer malabarismos com a mente, diante dos fanáticos
dos silogismos, dos prossilogismos e dos eussilogismos do
raciocínio subjetivo, obviamente expõe-se à
ironia, ao vexame, à zombaria, ao sarcasmo, à
sátira, porque isto não pode ser admitido jamais
pelo raciocínio subjetivo do intelecto. Isto que estou
afirmando só é acessível à intuição.
Se vocês querem um dia chegar de verdade à iluminação,
à percepção do Real, ao conhecimento
completo dos Mistérios da Vida e da Morte, terão
inquestionavelmente que subir pela maravilhosa escadaria da
imaginação, da inspiração e da
intuição.
O mero
raciocínio jamais poderia levar alguém até
estas experiências íntimas e profundas.
De modo
algum nos pronunciaríamos contra o intelecto. O que
queremos é especificar funções e isto
não é um delito. Fora de dúvida, o intelecto
é útil dentro de sua órbita. Fora de
sua órbita, como já dissemos, torna-se inútil.
Porém, se nos fanatizamos com o intelecto e nos negamos
de princípio a subir pelos degraus da imaginação,
jamais conseguiremos pensar psicologicamente.
Quem não sabe pensar psicologicamente, fica preso exclusivamente
ao rústico sensorial e pode até se converter
num fanático da dialética marxista. Só
o pensar psicológico abrirá a mente interior,
isto é óbvio, e nos fará subir pelos
degraus da inspiração e da intuição.
Indubitavelmente, de fato, abertas as maravilhosas portas
da mente interior, surgem os intuitos de dentro, que se expressam
através da mente interior, isto é, a mente interior
serve de veículo aos intuitos.
Esta mente interior é a própria razão
objetiva, a qual foi claramente explicada por Gurdjieff, Ouspensky
e Nicoll. Possuir a razão objetiva é ter aberto
a mente interior e esta funcionará exclusivamente com
os dados do Ser, com os intuitos da consciência, do
superlativo, do ético, daquilo que é transcendental
e transcendente em nós e não de outro modo.
Exposto este tema, fica aberto e diálogo. Quem quiser
perguntar alguma coisa que o faça com a mais inteira
liberdade.
- Mestre,
gostaria de saber se existe alguma diferença entre
intelecto e mente?
O intelecto
e a mente no fundo são a mesma coisa. Porém,
a mente não cultivada não é intelecto.
A mente cultivada é intelecto.
Alguém poderia ser muito inteligente e não possuir
intelecto. Assim, não há uma diferença
substancial e sim acidental.
Distinga-se potência e acidente de acordo com a lógica
formal.
- Que
representa a esfinge com a metade do corpo com a forma de
animal e rosto de homem?
O rosto
de homem representa o mercúrio da filosofia secreta,
o esperma sagrado de onde sai o verdadeiro homem. Quanto às
asas, obviamente representam o espírito. A esfinge
é importantíssima, foi tirada da Atlântida.
Os membros da Sociedade de Akaldan a usavam na universidade
da Atlântida. Essa sociedade mantinha a esfinge sempre
ali para representar o homem, para representar o caminho que
conduz à libertação final. Originalmente,
a cabeça da esfinge tinha uma coroa de nove pontas
de aço que representava a Nona Esfera, um báculo
em sua garra direita e a espada flamejante na outra. Claro
que atualmente está despojada de tudo isto, porém
originalmente tinha. Ela significa o caminho esotérico,
o caminho sagrado a seguir; os mistérios da Nona Esfera,
o sexo, o trabalho com os quatro elementos da natureza dentro
de nós mesmos, aqui e agora, para fabricar os corpos
existenciais superiores do Ser e converter-se em um verdadeiro
homem.
No entanto,
há que se fazer uma distinção entre a
roda do Arcano 10 do Taro, que gira incessantemente (a roda
do samsara) e a esfinge. A roda do samsara significa a evolução
e sua irmã gêmea a involução. Pela
direita sobe Hermanúbis evoluindo e pela esquerda desce
Tifão involuindo. A esfinge está sobre a roda,
ela é o caminho da revolução da consciência.
Precisamos nos meter pelo caminho da revolução
em marcha, da rebeldia psicológica. Este é o
caminho que leva à libertação final.
Temos de nos afastar da evolução e da involução
e nos meter pela senda da revolução em marcha,.
ser rebeldes, ser revolucionários...
Se é que realmente queremos chegar à libertação,
precisamos de grande rebeldia psicológica!
- Mestre,
creio que todos já ouviram falar, até aparece
nos jornais, sobre o cinturão da morte que se encontra
no Atlântico. Poderia nos explicar que fenômenos
ocorrem por lá?
Aquele
triângulo que há ali nas Antilhas, no Atlântico,
é uma zona onde muitos aviões se perderam porque
entraram com facilidade na quarta vertical. Em tais casos,
ocorre uma perfuração muito natural por onde
em muitas épocas passa-se para a quarta vertical. Ela
está perfurada e isso é muito normal. Naquela
zona há perfurações, por isso muita gente,
navios, etc., perderam-se por lá; submergem na quarta
vertical e continuam vivendo na quarta vertical.
- Não
há maneira de sair?
Pois melhor
nem sair; para que?
- Com
corpo físico?
Com o
corpo de carne, osso e tudo, mas não vás te
meter por ali. Se tu queres ir viver na quarta vertical, não
te aconselho a ir.
- Você
não disse que é melhor nem sair?
Bom, é
difícil... porque depois que a quarta vertical engole
alguém, é melhor que fique vivendo ali e quem
vive na quarta vertical, vive bem. Lá ele pode comer,
pode dormir, pode viver da mesma forma, normal, iluminado
pela luz do Sol. Lá há raças humanas,
etc. Não se vive somente aqui, há muita gente
que vive na quarta vertical. Existe uma raça humana
muito bela, da qual eu gostei muito...
- Como
se sacrifica a dor?
Vou lhes
dizer uma grande verdade. Somente se sacrifica a dor com auto-exploração,
fazendo-se a sua dissecação. Citemos um caso
concreto, imaginemos um homem que de repente encontra a sua
mulher em pleno delito num quarto com outro homem. Realmente,
isto pode provocar certos ciúmes, é natural...
Se encontra a mulher em demasiada intimidade com outro homem,
pode ocorrer uma explosão de ciúmes e isso produz
uma dor espantosa ao marido ofendido, o que pode dar origem
até a uma ação de divórcio, um
problema moral horripilante.
No entanto,
a encontrou conversando muito tranquilamente e nada lhe consta
de mau; somente podem ser feitas muitas conjecturas. Ainda
que a mulher negue e negue, a mente tem muitos ardis, muitos
esconderijos e formam-se muitas conjecturas. Que fazer para
se salvar desta dor? Como aproveitá-la? Como renunciar
à dor que lhe causou tudo isto? Existe alguma maneira
de resolver, de sacrificar est dor? Qual? A auto-reflexão
evidente do Ser, a auto-exploração de si mesmo.
Vocês
estão seguros de que nunca se deitaram com outra mulher?
Com outra fêmea? Estão seguros de que jamais
foram adúlteros? Nem nesta nem em passadas reencarnações?
Todos nós no passado fomos adúlteros, fornicários...
isso é óbvio. Se alguém chega à
conclusão de que também foi fornicário
e adúltero, com que autoridade está julgando
a sua mulher? Por que o faz? Ao julgá-la, o faz sem
autoridade.
Cristo
já disse na parábola da mulher adúltera,
a mulher dos evangelhos cristãos: "Aquele que
estiver livre de pecado que atire a primeira pedra".
Ninguém jogou, nem mesmo Jesus se atreveu a jogar.
E exclamou: "Onde estão os que te acusavam? Nem
eu mesmo te acuso. Vai e não peques mais". Nem
Ele mesmo que era tão perfeito se atreveu. Tendo Ele
agido assim, com que autoridade agora o faríamos nós?
Quem é que nos está proporcionando o sentimento?
A dor suprema? Não é por acaso o demônio
dos ciúmes? É óbvio! E qual outro demônio?
O eu do amor próprio que foi ferido mortalmente e que
é cem por cento egoísta. Qual outro? O eu da
auto-importância, o que se julga o importante senhor
Fulano de Tal, e "que esta mulher venha aqui agir com
este tipo de conduta"... Que orgulho terrível
o do senhor da auto-importância! E aquele outro demônio,
o da intolerância, que grita: Fora adúltera!
Condenada! Malvada, te expulso! Eu sou virtuoso, intocável...
Eis aqui,
pois, o delito dentro de nós mesmos. Esses são
os eus que vêm a causar dor. Quando alguém chegou
à conclusão de que foram os eus que produziram
a dor, deve se concentrar na sua Divina Mãe Kundalini,
pois é ela que desintegra esses eus.
Se o eu
for desintegrado, a dor termina. Terminada a dor, faz-se a
consciência. Portanto, através do sacrifício
da dor, aumenta-se a consciência e adquire-se fortaleza.
Ponhamos
que não tenham sido simples ciúmes e sim que
houve adultério de verdade. O divórcio terá
de acontecer, porque isso autoriza a lei divina. Neste caso,
também se pode dizer com absoluta segurança
que essa dor poderá ser sacrificada.
Bom, houve
adultério... Agora, eu estou seguro de jamais ter adulterado?
Então, por que condeno? Não tenho o direito
de condenar ninguém porque, quem se sinta livre de
pecado que atire a primeira pedra. Quem é que está
me causando esta dor?
Os eus
do ciúme, da auto-importância, do amor próprio,
etc.
Temos de chegar à conclusão de que são
esses eus que nos estão provocando a dor e passar a
trabalhar para desintegrá-los.
Eliminando
o eu, a dor desaparecerá. Por que? Por que foi sacrificado.
Isso traz um aumento de consciência, porque aquela energia
que estava condicionada pela dor foi liberada. Resta não
só a paz do coração tranquilo como há
ainda um aumento de consciência, um acréscimo
de consciência. Mas, as pessoas são capazes de
tudo, menos de sacrificar a dor, porque querem muito as suas
dores.
No entanto, resulta que as dores máximas são
as que brindam as melhores oportunidades para o despertar;
há que sacrificar a dor.
Há
muitas espécies de dor. Um insultador com seus insultos
provoca imediatamente em nós desejos de vingança
pelas palavras ditas. Porém, se não nos deixamos
identificar pelos eus da vingança, claro está
que não responderemos instintivamente naquela hora.
No entanto, se alguém se relaciona com o eu da vingança,
este eu se relaciona com outros eus mais perversos e esse
alguém termina nas mãos de eus terrivelmente
perversos, fazendo disparates. Assim como existe a cidade
do México ou qualquer outra cidade do mundo, é
claro que assim como nesta cidade de vida urbana há
gente de todo tipo, bairros de gente ruim e bairros de gente
boa, em nossa cidade psicológica ocorre a mesma coisa:
há bairros de gente decididamente perversa, gente de
classe média e gente mais ou menos selecionada. Não
é assim?
Se alguém
se identifica, por exemplo, com um eu vingativo, isso o relacionará
com outros eus mais perversos. O importante é não
se identificar com os insultos. Há eus dentro de nós
que ditam as normas: Responde! Vinga-te! Arranca o cravo!
Desforra-te! Se alguém se identifica com eles, termina
se identificando com o insultador. Mas, se não ocorrer
a identificação com o eu que está ditando
normas, não fará nada daquilo. Em todo caso,
o insultador deixa tudo no fundo do insultado. O interessante
seria que os ofendidos conseguissem sacrificar essa dor, o
que podem fazer através da meditação.
Compreender que o insultador é uma máquina mal
controlada por determinado eu; compreender que ele é
uma máquina e que também tem seus eus. Se alguém
compreende e compara que dentro de si também está
o eu do insulto, não tem porque condenar o outro.
Além do mais, o que é que ficou ferido em mim?
Possivelmente, o amor próprio, possivelmente o orgulho...
O que
tenho de descobrir é quem foi que se feriu; o amor
próprio ou o que? Ao descobrir que foi o amor próprio
quem se magoou, procede-se a sua eliminação.
Ao sacrificar a dor, ficamos livres dela e nasce uma virtude:
a serenidade. E despertamos ainda mais...
Há
que se ter em conta todos os atores. Temos de aprender a sacrificar
a dor. As pessoas são capazes de sacrificar tudo, menos
a sua próprio dor. Querem muito os seus próprios
sofrimentos, os idolatram. Eis aqui o erro. Capturar seus
próprios erros é o que importa para se aprender
a despertar a consciência. Claro, não é
coisa fácil. O trabalho contra si mesmo é muito
duro, porém vale a pena investir contra si mesmo pelo
resultado que se vai obter com o despertar.
- O que
foi que deu a você essa capacidade de análise?
No princípio,
a capacidade de análise que eu tinha, ainda que pensasse
que fosse extraordinária, era ainda incipiente em relação
com a atual capacidade de análise que possuo. A atual
capacidade de análise não devo a outra coisa
senão à desintegração do Ego.
Acontece que quando alguém tem Ego, é muito
estúpido, mas quando o desintegra, sua essência
fica livre e a essência livre confere-lhe inteligência.
Aquele que tem egos, pensa que é inteligente, mas não
é. Poderá ser um intelectual, mas uma coisa
é ser intelectual e outra ser inteligente.
Há
que fazer uma plena diferença entre esses dois aspectos.
Quando alguém aniquila o Ego, a inteligência
aflora de forma natural, espontânea. Quando alguém
não tem Ego, é inteligente, mas quando tem egos,
ainda que se julgue inteligente, pelo fato de ter lido muito,
de haver pertencido a tal escola, não é, não
é inteligente. Esta é a realidade dos fatos...
Quando eu possuía
egos, pensava que tinha uma grande capacidade de análise.
Depois que destruí o Ego, vim a compreender que naquela
época minha capacidade de análise era incipiente,
mas eu julgava que era gigantesca pelo fato de ter lido.
Somente o tempo é que veio me demonstrar que não
era tão grandiosa como eu supunha. Assim, o importante
da vida é ter a capacidade de auto-reflexão
evidente do Ser, a qual aflora com a aniquilação
do eu e permite que se veja as coisas mais claras.
|