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por
Sérgio Pereira Alves
Um dos
pontos centrais da teoria Junguiana é o processo de
individuação, e quando é citado sempre
surgem algumas questões a respeito de aspectos negativos
presentes neste processo os quais eu gostaria de evidenciar
no momento.
O processo
de individuação ou de transformação
interna nos leva sempre a um questionamento e conseqüente
conscientização de determinadas partes escondidas
de nossa psique assim como nos aproxima mais de nossa verdadeira
essência. Isso o transforma numa grandeza imensurável
cujo contato se faz difícil e na maioria das vezes
muito doloroso de se enfrentar.
O auto-conhecimento
que nos conduz à profundezas inesperadas e a um reconhecimento
de nosso lado sombrio tem força suficiente para desencadear
perturbações geradoras de problemas e conseqüente
mudanças de personalidade que jamais poderíamos
prever. O confronto com situações conflituosas
provenientes do inconsciente requer intencionalidade e inteireza
no propósito, pois simplesmente não podemos
amenizar o sofrimento deste contato com desculpas ilusórias
ou explicações cômodas. Desta forma só
estaríamos ampliando, em muito, as possibilidades destrutivas
existentes.
O inconsciente
é de natureza amoral, e é dele que se apresenta
o que for necessário para nos desapegarmos dos agregados
ilusórios do ego, resultando em um crescimento em direção
à uma consciência mais ampla. E isto não
é tarefa fácil, pois dificilmente abriremos
mão do que somos, de nossas identificações,
para aceitarmos uma posição, uma perspectiva
ou um jeito novo que em geral nos é totalmente desconhecido
e oposto a nós.
Daí
surge a necessidade de um trabalho psicoterapêutico
onde a análise junguiana se caracteriza pelo confronto
dialético entre consciência e inconsciente. E
nossa individuação se faz percebida pela tomada
de consciência de componentes de nossa personalidade,
que originariamente apresenta sintomas negativos, aos quais
Jung denominou de sombra.
Quando
damos uma atenção especial às nossas
questões internas, vamos de encontro a esta personalidade
inferior, onde está contido tudo que não se
encaixa, que não procede. Tudo que não se ajusta
às leis e regras de nossa vida consciente. Na realidade,
tudo que é esquecido ou rejeitado não só
por motivos de ordem moral como também por conveniências
inconseqüentes. Em resumo, todas aquelas pequenas e insignificantes
imposições as quais somos condicionados deste
pequenos, tais como: 'mamãe não gosta' ou 'papai
do céu acha feio' ; e todas as demais características
que somos levados a nos identificar para melhor sermos aceitos
no meio onde crescemos.
Na verdade
todo o nosso inconsciente é a nossa própria
sombra quando o contrapomos à consciência representada
pela luz, ou ainda, quando tomamos uma postura de distanciamento,
rejeição ou medo, em relação aos
conteúdos desse inconsciente, ou melhor dizendo, de
nós mesmos.
O que
caracteriza alguma coisa como pertencente à sombra
é exatamente a nossa postura em relação
à ela ou a forma como reagimos à estes conteúdos.
As diferentes perspectivas, pelas quais vemos determinados
conflitos internos, surgem a partir de influências de
nossas próprias emoções que nos farão
lidar com tais conflitos de maneira agradável e simples,
ou desagradável e autodestrutiva.
Normalmente
nos livramos dos aspectos desta metade obscura de nossa alma
usando de artifícios onde atribuímos aos outros
o que é feio, preconceituoso e esquisito. Ou às
vezes, para nos sentirmos salvos ou isentos de pecados, os
transferimos para um mediador divino através de um
ato de arrependimento. Jung dizia que sem pecado não
há arrependimento, e sem arrependimento não
há o ato de redenção. Somente através
de uma análise profunda é que podemos nos confrontar
com esta metade obscura da personalidade, pois uma vez iniciado
o processo, torna-se inevitável esse contato e na maioria
das vezes, muito doloroso.
Este é
um momento psicológico onde não há outra
alternativa; somos expulsos do paraíso. Nos restando
apenas suportar com paciência, coragem e confiança
até que ocorra uma solução, uma mudança
de paradigma, no devido momento. Nem antes e nem depois.
E quando
nos aventuramos por um passeio por este inferno dantesco,
i.e., quando tentamos entender o que nosso inconsciente produz,
o caminho mais direto e natural seria permitir à nossa
alma um curso livre, através de um recuo de nossas
projeções internas, sem interferências
do ego. Modelando a realidade que nos circunda com uma concepção
mais realista da vida e, livre de ilusões. Agindo dentro
do que é certo, em cada momento, de acordo com o que
temos disponível, com o que somos, para que não
se permita que forças maléficas se tornem explicitamente
excessivas.
Uma vez
que corrigimos estas projeções, ou seja, que
separamos a realidade, das camadas de ilusão que a
envolvem, nos aproximamos de limites perigosos onde ultrapassá-los
significaria um empreendimento muito difícil, Pois
estes limites representam verdades específicas de um
momento psicológico que normalmente preferimos evitar.
Se obstáculos existem, é porque eles devem ter
alguma serventia, e talvez encubram algum recanto delicado
com uma escuridão que às vezes é salutar.
Determinados aspectos que talvez fosse muito mais tranqüilo
que jamais viessem à luz.
Estas
mudanças decorrentes desta experiência interna
são tão profundas que possuem um caráter
numinoso, i.e., somos compelidos a achar que elas representam
uma vontade de Deus. Isto é devido ao caráter
autônomo dos símbolos que surgem, pois o caminho
ou a solução para os conflitos se apresenta
com um impacto tão grande que nos fazem entender esta
força resultante desta maneira.
Estes
símbolos, que possuem os opostos representados em si,
são manifestações de um ponto central
que representa a totalidade, o Uno e acabam funcionando como
um Senhor do Mundo Interior, portando em sua estrutura, luz
e trevas.
Os primitivos
talvez tivessem alguma percepção desta grandeza,
pois em seus rituais representavam o sol como Deus-Pai. Fecundador
e criador, fonte de toda energia do mundo. O sol não
só é benfazejo como também destruidor
com seu calor abrasador. Ele brilha igualmente para todos,
bons e maus. E faz crescer tanto vidas úteis quanto
nefastas. Todas estas características o tornam adequado
para representar o Deus visível deste mundo, nossa
força propulsora, a libido cuja essência é
produzir a nossa realidade.
Em culturas
diferentes, existem infinitas outras representações
para simbolizar este arquétipo central da totalidade
portador do bem e do mal. Na mitologia hindu encontramos Shiva
que dispôs de uma metade de seu corpo para servir de
morada para sua consorte, Parvati. Esta é uma magnífica
representação deste mistério da união
de opostos que simboliza a essência da iluminação.
Neste padrão hindu de Deus-Shiva e sua Shakti se encontra
o poder procriador da substância imortal, fonte de toda
a vida.
Na iconografia
Tibetana encontramos a mesma representação na
imagem de Vajradhara e sua contraparte feminina, estreitamente
abraçados numa formação conhecida como
'yab-yum'. Aqui as duas figuras se fundem uma na outra em
suprema concentração à absorção.
Sentados num trono de Lotus que simboliza o Portal do Universo,
em régia atitude de calma imortal. As imagens de Shiva-Shakti
simbolizam a vida universal e individual como uma incessante
interação de opostos cooperantes.
Uma outra
representação de Shiva relativa a um outro par
de opostos começou a surgir na Índia com a invasão
dos povos árias do norte. Eles possuíam uma
coletânea de hinos chamados RigVedas, em sanscrito primitivo,
usado quando se ofereciam os sacrifícios Arianos. Ali,
Shiva conhecido como Rudra, O Terrífico, era uma divindade
menor a qual os devotos se dirigiam em apenas três hinos.
Sob o nome de Shiva, mais tarde, esta divindade vem a se transformar
em um dos três principais Deuses do panteão hindu,
depois de absorver algumas características de um Deus
da Fertilidade indígena. Neste momento se configurou
a trindade constituída por Vishnu, significando existência,
luz, concentração e preservação.
Shiva como representante de aniquilamento, trevas, dispersão
e destruição. E Brahma , no centro, com eixo
de equilíbrio.
Shiva
depois de passar, como Rudra, por características sinistras,
misteriosas e associadas às funções destrutivas,
se apresenta plenamente desenvolvido, combinando características
contrastantes . Como Mahakala ele é o grande deus do
tempo infinito, que tudo destroi. Com um aspecto oposto, ele
é Pashupati, o senhor de toda a criação.
Contam que a terra estava ficando desolada e foram pedir a
Vishnu que despejasse sobre a terra o rio cósmico Ganga,
para restaurar toda a vida do planeta. Acontece que este rio
tinha uma força torrencial que se caísse sobre
a terra, destruiria tudo, a faria em pedaços. Shiva,
ao saber, amparou o rio em sua cabeça, e pela água
que lhe escorriam pelo seus longos cabelos negros surgiram
os veios que deram origem ao Rio Ganga (Ganges) que possui
exatamente esta função restauradora e purificadora.
Shiva
é ainda Nilakanta , O Garganta Azul. Dizem que a serpente
Vasuki espalhou sobre o universo um veneno que o ameaçava
de destruição. Os Devas e Asuras que não
podiam lidar com tamanho problema, recorreram a Shiva que
bebeu o veneno livrando todo o universo de ser destruído.
Já
como Nataraja - O Senhor da Dança, Shiva possui os
dois aspectos: destruidor e criador. Na reclusão de
sua morada, no alto do Monte Kailasa nos Himalaias, Shiva
dança. E ao executar este ritual ele revolve toda a
neve sob seus pés, e à sua volta. Assim enquanto
dança ele destroi o universo. Mas a neve remexida pela
dança se derrete e começa a formar um pequeno
filete de água que desce as montanhas formando pequenos
veios que mais abaixo se transforma numa volumosa fonte de
vida que é o Rio Ganga.
Shiva
é ainda Ashutosha - 'Aquele que se basta', o Senhor
do Desapego. Aceita de bom grado o que lhe é oferecido
valorizando desse modo, mais a intenção do que
o objeto oferecido.
Como uma
lembrança do que é impermanente ou da constante
mudança, Shiva é Akasha - o éter, o sem
forma. Os fiéis de Shiva neste estado o veneram em
ritos usando uma pedra normalmente colhida no Rio Ganga ou
no Rio Gandaki no Nepal, para representar a sua imagem sem
forma. E transcendendo o estado de Akasha encontramos a 'consciência
pura'.
Com todas
estas manifestações através das formas
e da não-forma, de sua dança através
dos tempos, encontramos nos Svetasvattara Upanishads uma menção
sobre "este Deus (que) é o artesão do Universo,
o Ser Supremo. (Ele) mora eternamente no coração
das criaturas". E ainda é dito que "quando
não há trevas, não há nem dia
nem noite, nem ser nem não-ser, então (este)
é Shiva , o Absoluto, é o Imperecível".
Para que
os devotos lidem com todas estas representações,
é pedido a eles que adorem não os nomes e as
formas, mas o dinamismo, a torrencial corrente cósmica
de fugazes evoluções, que continuamente produz
e aniquila as existências individuais; como gotas de
uma poderosa queda d'água. O indivíduo passa
a ter uma atitude, identificando sua mente com o princípio
que lhe dá existência. Que o lança para
dentro de um processo de crescimento, eliminando as contradições
existentes em seu caminho. Assim ele se sente como parte desta
força suprema. Tanto os pesares quanto as alegrias
são transcendidas na entrada em um estado puro, livre
de opostos.
Assim
como em todo este simbolismo védico, as estruturas
psicológicas contém secretamente o seu oposto,
ou está de alguma forma ligado à ele. E não
existe nenhum ritual, ou momento psicológico, que não
se converta em seu oposto quando se toma uma posição
extrema. Quanto mais tomamos uma atitude unilateral, tanto
mais podemos esperar sua reversão para o seu contrário.
Isto é chamado enantiodromia.
Portanto
todas as nossas qualidades e características das quais
mais gostamos e defendemos são as mais ameaçadas
com certa perversão diabólica. Pois são
exatamente elas que mais reprimem o mal.
O autoconhecimento
é uma aventura que nos conduz a amplidões e
profundezas inesperadas, sendo sempre muito doloroso desencadearmos
perturbações difíceis de se administrar.
Nossa existência individual se caracteriza por uma relação
entre a alma livre, pura e perfeita, e as ilusões do
mundo exterior. Mas sempre poderemos transcender à
estes obstáculos temporais e a todos os nossos apegos
para conseguirmos discernir a realidade aparte das camadas
de ilusão que a envolvem.
Para a
psicologia moderna, com este empreendimento estaremos sempre
lidando com a vida e a morte da consciência comum, para
dar lugar ao surgimento de uma consciência superior.
Num confronto com a sombra, que apesar de sinistro e inevitável,
é o que nos projeta para a individuação.
E, sempre
que olho para lugares ermos do inconsciente, vejo Shiva. No
topo do Monte Kailasa. Pronto para começar a sua dança.
(*)
Sérgio Pereira Alves é Psicólogo Clínico
Junguiano atuando na clínica particular em Belo Horizonte.
Autor de vários artigos publicados em jornais e revistas
especializadas.
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