| “Quanto maior for a Inteligência num homem,
menos mistérios tem a existência para ele, pois
todas as coisas lhe parecem levar dentro de si mesmas seu
próprio Mistério.” (Schopenhauer)
Ferdinand Ossendowski |
“‘Pare’ – murmurou
o meu guia mongol quando atravessávamos a planície
próxima do Tzagan Luk –‘Pare!’
Apeou-se de seu camelo, o qual se deitou sem que fosse
necessário que lhe ordenasse. O mongol elevou
as mãos num gesto de prece e repetiu o mantra
sagrado: OM MANI PADME HUM... Imediatamente,
os outros mongóis pararam seus camelos e começaram
a rezar.
Que aconteceu – pensei, assombrado, e fazendo
parar meu camelo. Os mongóis oraram por alguns
momentos e, em seguida, montaram em seus camelos e seguiram.
‘Olhe’ – disse-me o mongol –
‘como os camelos mexem suas orelhas aterrorizados,
como as manadas de cavalos permanecem imóveis
e atentas e como os carneiros e o gado se ajoelham no
chão. |
Notou como os pássaros deixaram de voar e os cães
de latir: O ar vibra docemente, ouve-se um cântico que
penetra o coração de todos os homens, animais
e pássaros! O vento cessou de soprar e o Sol parou
em seu curso. Todos os seres vivos, tomados de medo, prostraram-se.
O Rei do Mundo, em seu Palácio Subterrâneo, ora
pelo futuro dos povos de toda a Terra.’ Assim falou
o velho mongol...”
Começava aí um estranho relato do explorador
Ferdinand Ossendovski em sua obra Bestas, Homens e Deuses
acerca das tradições orientais, especialmente
tibetanas, mongóis e chineses sobre Rigden Jyepo, o
Soberano deste Mundo e seu vastíssimo império
situado nas entranhas subterrâneas. Inicialmente, esse
explorador polonês deu pouca importância aos testemunhos
que vinham de diversas fontes, o que aconteceu somente mais
tarde, quando ele se dera conta da impossibilidade das múltiplas
coincidências. Cabe lembrar que os mesmos relatos foram
relatados pelo explorador sueco Sven Hedin, em sua portentosa
obra No Coração da Ásia, de
1903.
Em suas viagens pela Ásia Central, Ossendovski ouviu
histórias diversas, como por exemplo, aquela em que
uma tribo mongol rebelde, procurando escapar de Gengis Khan,
escondeu- se num país subterrâneo.Outro aldeão
mongol havia lhe mostrado, na região de Nogan Khul,
uma porta segundo a qual um caçador penetrou e, conseguindo
voltar, contou o que tinha visto. Os lamas cortaram-lhe a
língua a fim de impedi-lo de falar sobre tais mistérios;
muitos anos depois, já velho, esse mesmo caçador
voltou à entrada da caverna e desapareceu para nunca
retornar. Também um monge Houtuktu (Buda Vivo) informara
a Ossendovski sobre a aparição do Rei do Mundo
à porta de saída de uma caverna, que dava acesso
ao mundo subterrâneo.
Porém, seus relatos ainda são muito fragmentários,
porque os únicos portadores conhecidos desses mistérios
até então eram os lamas amarelos e também
os vermelhos, que se mostravam inquietos e reticentes diante
de indagações sobre o Reino Subterrâneo.
Durante sua estada em Urga( atual Ulan-Bator, capital da Mongólia),
Ossendovski procurou mais explicações com o
Buda Vivo mongol. Indagado, esse pontífice voltou-se
bruscamente e fixou- o com seus velhos olhos. Os outros lamas
que os acompanhavam, ao ouvirem o diálogo, expressaram
assombro. Não fora possível conseguir algo deles.
Essas e outras experiências de Ossendovski ocorreram
por volta de 1921. Alguns anos antes, porém em local
bem distante, outro explorador europeu, o marquês de
Saint-Yves D’Alveydre, viajava pela Índia e regiões
vizinhas e recebeu as mesmas tradições, os mesmos
relatos. Sábios hindus lhe passaram explicações
até então reservadas à casta brâhmane,
que foram transcritas no livro Missão da Índia.
Em 1885, ocorreu um fato estranho. D’Alveydre
recebeu ameaças de uma estranha confraria, que
se intitulava Os Homens de Negro. Sob ameaça
de morte, foi obrigado a destruir os originais desse
seu livro, juntamente com todas as cópias existentes,
entregues exclusivamente a um número seleto de
estudiosos ocultistas. Por sorte, um desses exemplares
escapou da destruição e, sob os auspícios
de Papus, famoso discípulo de Eliphas Lévi,
o livro pode ser conhecido pelo mundo todo.
No entanto, apesar das muitas informações
ali contidas, também essa obra ilustra pouco
acerca da realidade misteriosa do Mundo Intraterreno,
chamado Agarthi. O autor escreveu entusiasmado, antes
de ser ameaçado e parar suas investigações: |
Saint-Yves D'Alveydre
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“Onde está o Agarthi...Em que preciso lugar
se encontra...Por quais caminhos há que se andar, e
que povoados há que atravessar para se chegar até
lá... A essas perguntas que farão com toda segurança
os diplomatas e os homens da guerra, não convém
responder enquanto não se realizar ou pelo menos se
firmar o entendimento sinárquico...
Porém, como sei que em suas diversas competições
na Ásia algumas potências roçam, sem se
darem conta, este território sagrado... como sei que,
em caso de um possível conflito seus exércitos
passarão sobre e junto a ele... pela humanidade, para
com esses povos e para o próprio Agarthi, vacilo em
prosseguir na divulgação que iniciei...”
Saint- Yves D’Alveydre influenciou sobremaneira o
ocultismo europeu e a história, mais do que se imagina:
suas pesquisas se tornaram base filosófica de diversas
escolas esoteristas européias e americanas. Notemos,
por exemplo, que um dos discípulos de Saint-Yves foi
instrutor de Rudolf Hess, um dos mentores espirituais de Hitler...
Nicholas Roerich
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“Lama, fale- me algo de Shamballah.”
Esse foi o início de um longo diálogo
entre um monge budista mongol e o viajante russo Nicholas
Roerich, em 1928. Considerado por Mikhail Gorbatchov
como um dos pilares da cultura russa, Roerich estudou
esoterismo, religiões orientais e arqueologia
para tentar compreender as tradições dos
lugares por ele explorados. Esse grande teosofista e
pintor do realismo fantástico viajou pela Mongólia,
atravessou os Montes Altai, o Tibet etc., para captar
a sabedoria das culturas ali enraizadas.
Ao escutar a pergunta, o Lama tentou se esquivar a
todo custo com respostas evasivas, mostrando a Roerich
a sacralidade desse tema.
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Porém, após muita insistência, Roerich
conseguiu tirar algo desse sábio mongol sobre a Chang
Shamballah e Seu Grande Reitor, conhecido no budismo tântrico
como Rigden Jyepo. Sobre as experiências de Roerich
sobre os mistérios da Terra Oca, falarei mais num capítulo
posterior.
Enfatizo neste texto o fato de a maioria dos
grupos de estudos espiritualistas e das religiões esotéricas
manter reservas quanto à divulgação desse
tema. Até mesmo nos dias de hoje poucas pessoas, mesmo
instrutores de esoterismo, conhecem muito pouco sobre as tradições
dos Reinos Subterrâneos. Isso se deve talvez à
pouca informação, fragmentária, que vemos
na literatura ocultista. Portanto, concluo que a curiosidade
geral sobre as “lendas subterrâneas” levou
a uma abundância de especulações e manipulações
ao longo da história. Vejamos...
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